Dia: 21 de outubro

Manuel Neto dos Santos atinge maioridade na poesia contemporânea

A poucos dias do lançamento de mais um livro de Manuel Neto dos Santos, “Círculo de Fogo” que, assinala também, 25 anos de publicações regulares, como define o poeta o seu «círculo de fogo», ou de poesia das palavras falantes, umas vezes versos e outras provocações, desabafos da alma poética aportada no corpo?

Pegando nas palavras do poeta nascido em Alcantarilha, concelho de Silves na década de 60, o «Algarve Mais News» dá a essas mesmas palavras luz verde num trabalho meio jornalístico, meio informal à volta de um agente cultural que desponta dia a dia mais no firmamento nacional:

“Eu era tímido como uma criança, como pedaços de sarja cinzenta; folhas tenras inclinadas para a terra. Já ao fundo da tarde o horizonte é um lenço de oiro, tardes tranquilas, montes de violeta da terra do Algarve, da terra grés… aprendi o rumor de outras marés. Eu era tímido como uma criança, e a timidez me fez poeta”, tal "Companheiro da alma, tão temporão, ando sobre o restolho de mim mesmo.

Cá vou, do coração aos meus assuntos como secas e cálidas dentadas para que a sombra das minhas sobrancelhas me ofereça essa visão de extenso prado, sangrando um mar de papoilas vermelhas."

As flores têm, na sua beleza, a ideia feliz de morrer em breve.

Tal como eu, vagabundo ou descobridor de cidades... talvez fosse melhor nada disto ser par distorcer os cordames da memória, pela qual, ainda hoje, me invades”, confessa o poeta que um dia fugiu ao viver urbano da cidade luz e decidiu até hoje as fragrâncias campesinas a caminho do barrocal algarvio.

 

   

 Escrever sobre Manuel Neto dos Santos é um deleite, basta lançar o mote e deixá-lo falar no seu escrever repentino. “Círculo de Fogo” é a obra que há já bastante tempo tinha intenção de conceber e escrever. Cada vez mais o que publico vai ganhando esse aspecto de “projectos”, anteriormente elaborados. Num ritmo vagaroso, reconstruo a casa do poema; A densidade matricial da casa num universo de duas vogais e duas consoantes; Consoante o ritmo, com soante ímpeto, repleto de lassidão. O espaço fértil desenha-se-me como um caminho por fazer, nos passos ao longo dos quais o poema se renova. Num ritmo vagaroso falo, de novo, pela primeira vez, para vos dizer que é a palavra a génese do Ser e do Estar. O ritmo uterino do som fervilha de pura vitalidade unificante para que se fique como uno e, como uno, a presença de mim seja uma evidência e a vidência seja fêmea impregnada e prenhe de silêncio. Voz uterina como a casa; ponto de partida para o “distante”. Cada coisa, cada ser, tem o seu próprio movimento; Vede a opulência da brevidade dos meus versos e ter-me-eis num excesso de desejo. Cada coisa, cada ser, tem o seu próprio ondular como um corpo nu. Cada coisa, cada ser, tudo pujante de uma exuberância de beleza, na sua concisão erógena e elemental. Menos o mundo de essências dinâmicas e fugidias, como se a opressa respiração do tempo se aliasse ao ritmo do universo e o fosse por inteiro; Tal e qual “… antes mesmo que o primeiro poema surja sobre a folha em branco. Vindo de uma “escola de estilo classicista”, de algumas obras a esta parte, tenho enveredado por uma expressão mais livre, na qual os versos raiam uma coloquialidade e visualismos muito maiores; os poemas são agora “retratos”, interiores e exteriores, marcadamente impressionistas, tendo como sílabas tónicas a musicalidade e riqueza expressiva da Língua. Daí a sugerir parceria de “diálogo” com as aguarelas de Fernando Lobo foi o passo lógico e natural”, sublinha o poeta de Alcantarilha, que já viveu alguns anos na freguesia do Algoz e há anos poisou em S. Bartolomeu de Messines.

Uma vida, ainda jovem, felizmente e, tanto ainda para dar à sua região do país que ama, Manuel Neto dos Santos, estudante que abdicou de uma licenciatura, mestrado e doutoramento, para se dedicar a tempo inteiro às letras, artes e natureza, ora dando explicações, ensinamentos aos mais jovens e nomeadamente o português aos estrangeiros, ainda ao associativismo, teatro, serões e tertúlias culturais e também às flores com as quais cresceu e apalpou cheiros e fórmulas em jardins sonhados e criados pelas suas mãos, no entanto, é nos livros que atinge orgasmos pela vida fora. Depois de tudo, o que é que o poeta podia ter feito ou o que ainda está por fazer? “De facto assim é, abdiquei de muita coisa e fiz da condição de “poeta” a minha forma de estar na vida. Tem sido a poesia que me tem revelado o mundo, as paisagens, as pessoas, as cidades. A relação com a paisagem ao meu redor e a natureza “ baptizou-me” de poeta panteísta, senão vejamos: Sou um rigor de presença não descrita, como se não descreve a aragem numa impetuosidade comovida, perante um sol que se despenha no horizonte. Por que não me visitam os lugares originários, para que a breve hesitação do dia claro dedilhe rupturas de fluxo… Na água ejaculada de uma fonte.”

Não me prendo ao “que podia ter feito”, tenho fluido como vejo fluir um rio e aprendido que o silêncio é o melhor companheiro de “jornada”. Por fazer…o que a vida me for trazendo; continuar a publicar (as 22 obras inéditas) e a aprender quem sou, ou antes “vou-sendo”, através das palavras. Passados que são 25 anos sobre edição de “O FOGO, A LUZ E A VOZ”, começa a surgir o reconhecimento e a possibilidade de obras traduzidas pela Europa…festivais internacionais de poesia… responsabilidade mais do que acrescida para que me renove nas temáticas e no aspecto formal dos poemas, na senda da dignificação da Língua Portuguesa, por onde quer que vá”, refere, fazendo questão em falar e escrever à moda como aprendeu, num sinal da não aderência ao novo acordo ortográfico por discordar naturalmente.

 

 O Manel para os amigos foi enquanto jovem para a universidade, em Lisboa, contudo, faltou-lhe a maresia, os sabores do peixe e das cataplanas, o correr e o saltar pelas ruas de Alcantarilha e, de um dia para o outro, veio de abalada para o seu Algarve. Ultrapassados estes anos, o que é que faltou ao poeta? As ajudas e subsídios do Estado solidário com a cultura para sobreviver às despesas universitárias e citadinas? As saudades de um menino feito homem da família e dos sóis algarvios? Hoje em dia existem remorsos pela interrupção dos estudos, ou a dedicação às artes trouxeram-lhe mais diplomas e «canudos» que os dos papéis timbrados e selo branco? “A minha passagem por Lisboa foi de escassos meses. Dizia minha mãe ”há males que vêm por bem”… foi de facto a falta de pagamento atempado da bolsa de estudo que me fez regressar, e começar a trabalhar na construção civil … depois como jardineiro e por hotéis… quanto maiores eram os desafios físicos… maior sentia em mim a necessidade “anímica” de me construir poeta”, expressa perentório e de nada arrependido, mas será ele, um poeta e homem feliz enquanto cidadão? Olhando para o panorama cultural da região e país, designadamente, para a poesia, em que lugar se situa, reformulando a questão, o que pensa do poeta Manuel Neto dos Santos?

“O poeta é um homem atento. A tudo. Uma frase, um comentário, um pôr de sol. No plano cultural…exista uma editora que de facto me “lançou” a nível nacional, por Espanha e pela Holanda; a Arandis Editora. Sem ela, seria ainda mais desconhecido, tenho plena consciência de que sou uma voz “incómoda” para um certo feudo de “pseudo-intelectualóides” e translúcido para um ou outro autointitulados “jornalistas” que não conseguem distinguir entre diferenças do foro pessoal e a ética (?) profissional, que de veria assentar no verbo (in)formar. Canudos… lembro-me das dedeiras de cana que meu pai camponês usava de sol a sol ceifando as searas dos outros… selos brancos prefiro, hoje como quando comecei a escrever pelos 12 anos, selos negros; a marca dos meus versos sobre as folhas pois outro desejo não tenho para além de fazer parte, um dia, se assim tiver merecimento que o justifique, da memória poética do país onde nasci”.

Pragmático, sonhador, criador de vindoiros, ou fascinado de horas apagadas: “Um pássaro não pode pousar tranquilo; Na linha do verso; No ramo da frase; Um sol redondo, como o teu mamilo; Girassol disperso; Sem pétalas, quase”,ou metrifica, “Morre-se e pronto; Ponto por ponto a ponte, entre o distante e o horizonte; A fonte; Da carne que arrefece… e fica morta; Nada; se a travessa de vida não nos diz corre, não nos; Importa; nem janela; A morte, só por si, é toda ela”, revive à posteridade, “Terra minha abençoada; Quem te pintou branca assim? Que nunca te manches, nunca; Pois não o serás por mim”, aflora-lhe no subconsciente mensageiro de quem “Sei-te de cor; Exala a mornura do teu corpo nu; Perfume adocicado, tão único, por seres tu; Sabor de sal e seiva; O teu suor; Uso o fruto, no usufruto da demora; o fruto é a flor em plena aurora; E a madrugada a imagem que, cabisbaixo, ao longe, escuto”

Obra publicada:

“O Fogo, a Luz e a Voz”, em Dezembro de 1988.

Seguiram-se “Atalaia” (1989), “Trovas de Um Homem da Terra” (1991), “No País de Amália” (1992), “De Deus a Algazarra dos Silêncios” (1996), “Idílios de Al-Buhera” (1996), “Poesia Algarve 2” (1999), “Subsídios para a História da Poesia do Algarve” (2000), “Ídola” (2002), “Versos de Redobre” (2004), “Safra” (2011), “Sulino” (2012), “Claves do Sol e da Lua” (2013), “O Corpo como Nudez” (2014), “O Viandante das Palavras” (2014), “Aurora Boreal ao Sul” (2015).

Obra inédita de dezembro 2012 a dezembro 2015

 “Fronteiras de Nusquama”, “Dorsos de luz de águas mais profundas”, ”Noite reclinada sobre um dos ombros”, “69 Breves estudos para um grande poema de amor”,  “142 Íntimas cartas de público segredo”,  “Raiz da memória, e  outros poemas namorando o ouvido”,  “al- Mús-Sauddat, saudade à sombra das horas e das nuvens”, “Requiem para o canto dos cisnes”,  “Lago turvo para Narciso”, “Cântico Lúcido” ,“Homeros”, “Pois ia, só sei que não vou por aí”, “Fescénia”, “In memoriam Arenas, Botto, Lorca”, “Deixa-me beber-te a formosura - 365 poemas de amor bissexto-”, “Breves dias eternos”, “Fíbula”, “Breves notícias do silêncio”, “Do coração e das nuvens, sobre o oásis”, “Da claridade, erguida em noite escura”, “Tímida exuberância”, “Dias de fazer” “Ímpeto, num claro grito”, “Poesia, na tua pele os nardos e os segredos”

Entrevista: João Pina

Fotos de Arquivo

 

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