Dia: 26 de Mai
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Este não é o meu “25 de Abril”, pá!

Não sinto a excitação de há 42 anos quando pressentia que algo de estranho estava acontecer para melhorar o estado de alma dos portugueses, aliás, uma intensa inquietação me assola hoje a mente, atendendo aos últimos casos e factos que se vivem em Portugal.

 (...) "AS PRIMEIRAS RECORDAÇÕES DO MEU "25 DE ABRIL".

Do casamento adiado e das muitas mudanças na minha vida a partir dessa hora. Arrependido? Claro que não! (...)".

 Há 42 anos, acordei pelas 08,50 horas, com o telefone do tamanho de um tijolo sobressaltado na velha mesa-de-cabeceira no quarto independente, da Rua Correia Teles, 69, 2º Esqº, Campo de Ourique, Lisboa a tocar tlim, tlim, tlim:

 - Estou! Estou!

- Sou uma infeliz! Há dois anos há espera deste dia e acontece uma coisa desta! A guerra! A revolução!
- O quê? Estou! Estou!
E do outro lado da linha, a voz alterada da minha Bé, gritava chorar:
- É a revolução! A guerra! O Movimento das Forças Armadas, dos Capitães! Está tudo fechado...
- É o quê? - respondi atordoado, ainda, com os copos da noitada de despedida de solteiro.
- Está tudo fechado! Já não casamos, querido... - e escutei o telefone a desligar-se.

 Estas as primeiras recordações do meu "25 de Abril", do casamento adiado e das muitas mudanças na minha vida a partir dessa hora.

 Arrependido? Claro que não!

 - Bancos abrem falência com banqueiros riquíssimos posteriormente.

- Emigrantes trabalhadores de décadas roubados dos seus depósitos poupanças.

- Políticos presos enriquecidos à pressa.

- Estabelecimentos prisionais quais colónias de férias ou SPAs para VIPs.

- Milhões de euros avindos de subornos escondidos em offshores na Madeira, Panamá e em outros paraísos fiscais.

- Polícias prendem polícias.

- Justiça a contas com a justiça.

- Estado da saúde vivamente doente e sem meios.

- Centenas de jovens licenciados pagos nas universidades pelas famílias e pelo Orçamento de Estados, emigram para o estrangeiro, beneficiando esses países que não investiram um cêntimo nas respetivas formações.

- Cada dia que passa em Portugal, existem ricos mais ricos e multimilionários e pobres cada vez mais pobres.

- Pareço de vergonha, constatar que um primeiro-ministro do meu país esteve detido por alegadamente ser suspeito de uma carrada de crimes, nomeadamente, corrupção, estar a aguardar acusação e respetivo julgamento, bem como, outros nomes sonantes de políticos e autarcas estarem a contas também com a justiça.

- Em cada rua, avenida, freguesia, vila ou cidade, sobrevivem dezenas e dezenas de famílias em «estado de pobreza envergonhada».

Passados 42 anos, assistimos, finalmente, à governação de um governo de esquerda amparado por uma coligação, onde as mulheres têm sempre a última palavra a proferir, além de, patrocinarmos, igualmente, o presidencialismo de Marcelo Rebelo de Sousa que, se passeia pelo país da mesma forma que se movimenta nos gabinetes e bastidores da política, qual rei sem coroa, mas que de facto reina em Portugal e o traz e o leva pela mão.

Este não é o meu “25 de Abril”…

Já lá vão 42 anos que corri e saltei de alegria pela Avenida da Liberdade e Largo do Carmo, em Lisboa, de cravos vermelhos na mão e a gritar:

- Viva a liberdade!

- Viva a democracia!

- Viva a liberdade de expressão!

- Nunca mais à censura!

Como eu, afortunado e cheio de expetativa quanto ao futuro de Portugal, milhares de portugueses celebraram durante dias e dias o contentamento da repressão com que vivemos e sofremos na pele as escarpas do fascismo.

O dia “1 de Maio” de 1974 ainda o retenho na cabeça, fiquei travado no Porto, porque a cidade estava apinhada com o povo a cantar as canções do Zeca Afonso e deixei-me «embebedar» de júbilo pela felicidade das pessoas e com os cravos vermelhos mais vermelhos que já tinha visto na vida.

Após anos a cantar “Grândola Vila Morena”, apoderou-se do povo uma tremenda agonia e frustração pelos efeitos que a revolução, décadas depois, estava a produzir na sociedade portuguesa. 

As homenagens do 25 de abril de 2012 foram assinaladas por uma tristeza profunda, um sofrimento jamais previsível e uma imensa preocupação quanto ao destino imediato de cada português e do país no seu todo.

Foram as comemorações do desencantamento de uma geração, festejos amargos e de cravos murchos, em vez dos militares na rua com os cravos nos canos das G3 confraternizando com o povo, víamos, agora, um povo triste, esfomeado e sem energias para afamar fosse o que fosse.

Na Assembleia da República, palco oficial de celebrações históricas, faltaram os capitães de abril, hoje coronéis e generais da «Associação 25 de Abril», e, também o ex-presidente da República Mário Soares e o histórico socialista Manuel Alegre, entre outras figuras da história recente por não concordarem com o rumo que o país estava a tomar, designadamente, com as políticas do governo de Passos Coelho.

Pela cabeça dos capitães de abril, nunca lhes passou que 38 anos depois, o país estivesse à beira da fome coletiva, endividado, violência nas ruas, desemprego e em risco de uma nova revolução, desta feita social.

Os ideais daqueles anos eram diferentes dos de há décadas atrás, antigamente, lutava-se pela liberdade de expressão, melhores oportunidades de vida e acima de tudo pela queda do fascismo.

Foram esses os motivos do “25 de Abril” e, que foram amplamente alcançados, quiçá, mais do que se pensaria e ambicionava em 1974.

Havia quem afirmasse que se conquistaram benesses excessivas e que a geração nascida nos pós 25 de abril não soube aproveitar as conquistas de então, aliás, a começar pelos sucessivos governos que só pensaram em aumentar a despesa com a excessiva e tão desnecessária administração pública, com autoestradas, pontes, obras e mais obras, abertura de universidades atrás de universidades.

Não pretendemos dizer que as infraestruturas rodoviárias e universidades não fizessem falta, mas foram excessivas e a maior parte das universidades não são

mais do que caça às matrículas e «venda» de licenciaturas que na maior parte dos casos têm sido passaportes para o desemprego continuado dos jovens.

O país não precisa de tantos licenciados armados em advogados, doutores e engenheiros, quando o que faz falta são técnicos profissionais especializados nas várias áreas de trabalho efetivo e não de gabinetes e de gravata ao peito em frente aos computadores.

A contribuir para as dificuldades então vividas, processou-se o assédio ao crédito fácil por parte das instituições bancárias.

A construção e posterior venda de casas aos jovens e não jovens, as facilidades com que se venderam automóveis de todas as marcas e de todos os preços, sendo sabido que 75 por cento dos portugueses passaram a ser proprietários de casa própria, de mais que um automóvel, computadores e dois ou três telemóveis, para além de outros equipamentos das chamadas novas tecnologias.

Certo e sabido é, também, que todos estes bens móveis e imóveis foram e estão a ser pagos a crédito, e que atendendo à crise económica e ao inevitável desemprego que afeta a maior parte das famílias, é completamente impossível que sejam pagos a tempo e horas ou simplesmente pagos, verificando-se cada vez mais as penhoras, proteladas, hoje, as vendas em hasta pública por falta de licitadores e legislação aprovada à pressa pelo atual governo para evitar ainda mais o descalabro social.

Na hora do apertar do cinto, ninguém quer assumir as culpas, da EU vieram milhões e milhões de euros, os quais se evaporaram como em passes de magia. 

Uma grande maioria dos trabalhadores com menos de 50 anos acostumaram-se a viver nos últimos 20 anos à custa do Fundo de Desemprego, de baixas por doença em que os sintomas apresentados não passavam de «amizades, conluio e facilitismo» de muitos dos médicos dos Centros de Saúde e, ainda, dos subsídios de rendimento social de inserção, o chamado rendimento mínimo e de reintegração.

Enquanto se viveu à custa de subsídios e do crédito fácil, as obras no país não podiam parar e teve que se recorrer à emigração que atingiu cerca de um milhão de trabalhadores legalizados e por legalizar, com preponderância entre brasileiros e emigrantes do leste, atendendo que os trabalhadores portugueses exigiam altos salários, não queriam sujar as mãos e «vergar a mola» como se diz na gíria.

Como resultado desta política do «deixa andar», os emigrantes ganharam muito dinheiro, reenviando-o para os países de origem e contribuindo para o enriquecimento dos mesmos.

Porém, quando a crise tomou conta do país, fizeram as malas e foram para outros destinos de trabalho lucrativo ou regressaram de vez às suas terras.

Entretanto, ficaram em Portugal os emigrantes que aqui constituíram família ou laços amorosos, ou aqueles que também olham para o trabalho de lado e nem sequer têm dinheiro para regressar, ou ainda, aqueles que não podem viver nos seus países por vários motivos.

A verdade é que entraram muitos milhões de euros vindos da EU, para além do dinheiro ganho merecidamente pelos trabalhadores emigrantes, das infraestruturas construídas e que estão à vista de todos, do enriquecimento de umas quantas empresas de construção civil, é hora de perguntar:

Afinal para que serviram os milhões se os portugueses vivem no limiar da pobreza e todos os dias abriram falência mais empresas?

Onde está o dinheiro dos bancos que deixaram de conceder crédito para a sobrevivência das ditas empresas com problemas de tesouraria?

Onde está o dinheiro descontado para a Segurança Social se o futuro desta instituição está em risco de sobrevivência?

Este não é o 25 de abril que os portugueses sonharam?

Vivemos num país, que agora passou a ser uma espécie de protetorado e controlado à distância por uma equipa de especuladores invisíveis que nos estão a sugar até à penúria completa.

Como país, na aceção da palavra, temos apenas uma bandeira meio esfarrapada, fronteiras sem cadeados por onde entram de vez enquanto uns funcionários europeus engravatados de malinha na mão a mando do grande capital que nos vêm cobrar e impor mais juros.

Os políticos querem à força toda deixar de o ser, mas primeiro querem assegurar um «tacho» que lhes dê de comer para o resto da vida.

Entretanto, os novos donos de Portugal, os auto denominados «mercados» ou seja o «grande capital» impõem medidas de austeridade atrás de mais medidas que engrossam diariamente o pelotão de milhares de esfomeados que recorrem à «sopa do Barroso», como nos tempos da 2ª Guerra Mundial, e contribuem para se chegar ao número de um milhão de desempregados.

A terminar os meus 42 anos de análises escritas e faladas sobre o “25 de Abril”, acabe-me ajuizar que o então jovem de menos de 30 anos, está triste pelo desenrodilhar dos factos e pelo estado de degradação do país que amo, em que a população descresse, nascem cada vez menos crianças, fogem para o estrangeiro mais jovens e regressam menos aposentados.

Num futuro próximo, em análise perversa e agoirenta, Portugal, eventualmente, poderá deixar de ser um país independente política e economicamente e, sim, parte integrante do "País Ibéria" totalmente dependente da EU e uma colónia de férias para a classe sénior e capitalista em busca do sol dourado com os poucos milhares de portugueses a serem lacaios subservientes, quais criados de mesa, cozinheiros e sopeiras do capital em férias.

Porra! Onde está a minha Portugalidade e os 44 meses como miliciano graduado no exército em tempo de guerra?
Para quê termos um Presidente da República frenético de amor pela Pátria?
Para quê homenagearmos Salgueiro Maia e honrarmos os antigos combatentes da guerra colonial?

Vamos acabar com a corrupção entre os usurpadores do poder, dos gananciosos mercenários da política, repor o espírito republicano e democrático conquistado há 42 anos.

Pensemos nos nossos idosos e netos e na sua dignidade no viver e, então carregar as forças das nossas consciências e sermos portugueses a sério.

João Pina
25.04.2016, pelas 00.05 horas

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