Dia: 13 de Nov

A sedução da Ria Formosa

A Rota da Ria Formosa seduz o visitante pelos contrastes dos planos de água que se formam, entre a terra firme e as ilhas de areias voláteis e praias fabulosas.

Contrastantes são também as cidades de Faro e Olhão, uma com o seu casario de vetustas antiguidades, a outra entranhada de sol e de sal, desde sempre ligada ao mar e à pesca. Navegando ou caminhando, os trilhos desta rota abrem-nos o mundo maravilhoso do Parque Natural da Ria Formosa.

O ponto zero do percurso é em Faro, uma cidade ampla de antiquíssima origem, com uma fisionomia própria e uma personalidade marcada.

A sua história está marcada por inúmeros terramotos, incêndios, saques de pirataria e ações militares, mas todavia a cidade seduz pelo seu aspeto claro e sóbrio.

Desde o século XVI que Faro é a capital do Algarve, protegida pelo cordão dunar das ilhas da Ria Formosa. Ao longo dos séculos e desde o período romano, altura em que se assumiu como um dos mais importantes centros urbanos do sul da península ibérica, a sua importância manteve-se. O geógrafo árabe Rasis considerou-a “entre as de igual grandeza, a melhor do mundo” da sua época. Desconhece-se com exatidão a sua origem, mas há quem defenda ser aqui o local da mítica Ossónoba.

Rodeada pela Muralha seiscentista, a Vila Adentro - o mais antigo centro histórico de Faro – reúne alguns dos seus mais significativos valores do património cultural, tornando a sua visita obrigatória.

A entrada faz-se pelo Arco da Vila, uma das portas abertas na muralha, situada junto ao Palácio do Governador e acederemos à Sé, um edifício gótico (século XII), com uma torre que nos proporciona uma bela vista sobre a cidade. Em frente, está o paço episcopal, palácio nobre do século XVIII, de linhas sóbrias mas de aspeto imponente, reconstruído logo após o terramoto de 1755. A curta distância está o paço do concelho, formando este conjunto arquitetónico uma praça ampla de proporções elegantes.

Uma estreita viela leva-nos ao Convento de Nossa Senhora de Assunção, com o seu gracioso claustro.

Ali funciona o Museu Arqueológico e Lapidar Infante D. Henrique do qual se destacam a Sala Islâmica, entre diversas exposições permanentes

O Arco do Repouso, a porta nascente da muralha, conduz-nos até ao Largo de S. Francisco, onde o convento do mesmo nome foi transformado em Escola de Hotelaria. Já a Porta Nova, a poente, desemboca junto à ria e à doca.

A cidade é rica em igrejas, antigos palácios, museus e galerias, com destaque para a Igreja do Carmo, que possui, a seguir à de Évora, a Capela dos Ossos mais relevante no contexto nacional.

As casas caiadas de branco, com seus telhados de quatro águas ou de tesoura como lhe chamam os locais, os arcos e as ruas estreitas, são pormenores que definem a arquitetura da capital algarvia, visíveis na Rua de Santo António e no espaço pedonal em volta, animados por esplanadas e lojas cosmopolitas.

Com a promessa de aí regressarmos, para conhecer, por exemplo a Praia de Faro, cujo acesso se faz pelo canal principal da Ria Formosa, deixamos Faro seguindo para Leste na EN 125, atravessaremos S. João da Venda e tomando atenção às indicações do trânsito em breve estamos em S. Lourenço, cuja igrejinha está totalmente recoberta de azulejos do século XVII, enquadrando o altar em talha dourada e oito painéis figurativos.

Almancil é a porta de entrada para alguns dos mais luxuosos empreendimentos turísticos do Algarve.

Seguiremos por entre as famosas rotundas da Quinta do Lago até à beira mar, para nos deliciarmos com os percursos pedonais que estão desenhados de forma a proporcionar a apreciação de centenas de aves, flores exuberantes, matas de pinheiros e grandes lagos de água doce. Momentos de rara beleza natural, em especial, amanhecer ou sob o encanto da luz do sol poente.

Igualmente acessíveis estão quase todos os desportos, desde a equitação até à vela, destacando-se todavia o golfe. As praias vastas, possuem inúmeros atrativos e uma gostosa oferta em termos gastronómicos.

Poderemos regressar a Almancil fazendo um pequeno desvio por Vale do Garrão e Vale de Lobo, destinos turísticos cosmopolitas, porém integrados harmoniosamente na paisagem.

Será ao regressarmos por S. João da Venda que iremos optar por deixar a EN 125 e seguir para Norte, atravessando o Esteval e seguindo para Santa Bárbara de Nexe, a meia encosta do serro, fazendo a transição para o barrocal algarvio. A próxima paragem será em Estoi.

A joia desta grande aldeia é sem contestação o “Jardim” nome porque é conhecido o conjunto - jardim e palácio – classificado como imóvel de interesse público.

Este complexo é uma sumptuosa construção do século XVIII, um dos melhores exemplares do período romântico.

A Igreja Paroquial (sécs. XVI/XVII) rodeada de construções de arquitetura popular oferece, no alto da sua torre sineira em plano superior ao do Palácio, um panorama encantador, deslumbrante no tempo das amendoeiras em flor, que nos arredores formam grandes pomares.

A tradição da Festa da Pinha, na altura da Páscoa, que se iniciou no tempo dos almocreves, observa um curioso ritual. Enfeitam-se as carroças e os cavalos e o cortejo vai da aldeia até ao Pinhal do Ludo, próximo do litoral.

Aí acendem-se grandes fogueiras, onde se queimam mechas de alecrim perfumado, em torno das quais se realiza um piquenique e um animado baile popular.

A 1 km ficam as Ruínas de Milreu (século II D.C), vestígios de uma faustosa vila romana de um patrício, onde podemos encontrar termas com mosaicos policromos e as ruínas de uma basílica cristã do século IV, construída sobre o templo romano. No Centro Interpretativo poderá encontrar todas as informações sobre o complexo.

O desvio para Moncarapacho fica junto ao largo da Igreja de Estoi e bastará percorrer 9 km para lá se chegar.

Apreciem-se as sebes de romãzeiras que só terminam junto à Olaria de Moncarapacho, uma empresa familiar de artesãos criadores de peças típicas. Um local ideal para levar uma recordação do Algarve.

A aldeia possui algumas casas do século XIX e início do século XX, e a igreja matriz edificada no século XV é uma ampliação da primitiva capela gótica. O Museu Paroquial, anexo à Capela do Espírito Santo integra, para além de um conjunto de interessantes peças de arqueologia e etnografia local, uma valiosa coleção de imaginária religiosa dos séculos XVI a XVIII, sendo a sua principal atração o presépio napolitano setecentista de 45 peças.

Serão apenas 6km até ao cimo do Cerro de S. Miguel (Barranco de S. Miguel), a 411 metros de altura, de onde se vislumbra um dos mais belos panoramas do Algarve.

Na breve passagem por Quelfes, encanta o verde das figueiras e das vinhas envolvendo a povoação que, nas ruas em torno da igreja, ainda conserva casas de paredes brancas e chaminés rendilhadas. Nas proximidades, fica a ponte de origem romana reconstruída por diversas vezes onde, em 1808, as tropas napoleónicas foram derrotadas num combate, ponto de partida para a sublevação de todo o Algarve.

Uma das cidades que mais atrativa se mostra do Alto do Cerro de S. Miguel é Olhão, com as casas de açoteias e minaretes, uma malha de cubos brancos que lhe valeu o epíteto de cidade cubista.

Olhão pede uma visita com vagar, para percorrer os recantos, os becos, o labirinto de ruelas e travessas estreitíssimas.

A origem da palavra “Olhão” remonta aos séculos XV/XVI. O “Logar de Olhão” possuía água em abundância e atraiu pescadores que ali se fixaram. O escritor Raul Brandão descreve-a como “uma cidade entranhada de sal e de sol”.

A visita à cidade do mar, deve terminar na marginal junto à Ria refrescada por jardins e esplanadas onde se destaca o ambiente colorido do Mercado Municipal, que de dia cumpre a sua tradicional função e de noite acolhe uma animada vida noturna. É um espetáculo de cores aromas e sabores, um prazer para os sentidos.

Junto da malha tradicional, a Igreja Matriz datada de 1695 declara na fachada que foi edificada “À custa dos homens do mar deste povo se fez este templo em que só haviam umas palhotas”. Foram esses mesmos pescadores que construíram no século XVII o primeiro edifício feito em alvenaria, a Ermida de Nossa Senhora da Soledade.

A partir da torre da Igreja Matriz, contempla-se o impressivo panorama da construção tradicional das casas olhanenses, tal cubos sobrepostos, açoteias para a seca do peixe, mirantes para vigiar o mar. Noutras ruas e avenidas há nobres fachadas enriquecidas em azulejos, varandas e ferros forjados.

Em qualquer lugar da cidade, por vezes no singelo restaurante ou na casa de petiscos, chegam à nossa mesa pratos da cozinha tradicional de confeção talvez simples, mas de paladar inesquecível.

Todos os frutos do mar participam na gastronomia Olhão, desde o xarém com conquilhas, às lulas cheias à moda de Olhão, aos guisados de litão ou safio, ao arroz lingueirão, aos chocos com favas, ou as famosas cataplanas em numerosas versões, uma cozinha de pescadores cheia de saberes.

A importância do marisco nestas terras é de tal ordem que merece, todos os anos em agosto, honras de um Festival.

Os doces também são uma tentação. Bolachas bêbedas, em que na receita entra aguardente; figos cheios, bolo de figo, empanadilhas e bolo de laranja e amêndoa são saborosas maneiras de terminar uma refeição.

É irresistível a proposta de conhecer a sede do Parque Natural da Ria Formosa.

Partimos ao longo de uma trilha que permite observar aves migratórias, plantas enraizadas em solos secos ou alagadiços.

Os famosos cães de água, espécie autóctone que já esteve em vias de extinção e cuja criação o parque garante, é um dos outros atrativos. O moinho de maré murmura canções líquidas conforme o mar sobe ou desce.

O Chalé do pintor João Lúcio, rodeado pelo misterioso pinhal, apresenta uma arquitetura esotérica e cheia de simbolismo. Lá dentro funciona uma ludoteca.

O Parque Natural da Ria Formosa abrange cerca de 17 mil hectares, de Cacela-Velha ao Ancão e é uma porta para a descoberta do maravilhoso universo da fauna e da flora desta zona do litoral algarvio. O Centro de Informação e Interpretação, instalado na Quinta de Marim, a 1 km de Olhão, possui um museu e exposições dignas de visita.

Mas a maior das tentações é um cruzeiro por entre os canais da Ria até às ilhas da Culatra, da Armona e do Farol, ou mesmo até à ilha da Fuseta.

As areias douradas estendem-se até ao infinito, com a espuma das ondas a espraiar-se leve e branca.

Não há palavras para descrever o pequeno paraíso que é a Ilha Deserta (Ilha da Barreta) e uma forma perfeita de terminar esta Rota seria este passeio pelos canais.

São dezenas de praias impolutas, quentes e na sua maioria desertas.

Já de volta a Faro, seja marinhando ou por estrada, e neste caso usemos a EN 125, a gastronomia da capital oferece voluptuosos bivalves - amêijoas e conquilhas – seguidos de uma sopa de peixe típica, um apetitoso arroz de lingueirão, ou em alternativa a cataplana de tamboril ou de marisco, uns choquinhos fritos com tinta, pratos deliciosos e muito apreciados.

Haverá ainda tempo para nos perdermos na animada noite de Faro, onde os jovens da Universidade do Algarve, com irreverência e classe, protagonizam uma movida divertida a que não é alheia uma vasta oferta cultural.

Deixe um comentário

Make sure you enter all the required information, indicated by an asterisk (*). HTML code is not allowed.

voltar ao topo
×

Sign up to keep in touch!

Be the first to hear about special offers and exclusive deals from TechNews and our partners.

Check out our Privacy Policy & Terms of use
You can unsubscribe from email list at any time