Dia: 21 de outubro

Baía de Armação de Pêra com mais peixes “meros”

(…) “A baía de Armação de Pêra é considerada um paraíso para biólogos marinhos e mergulhadores, servindo de casa a mais de 800 espécies, entre elas, uma alga protegida a nível internacional.

O recife natural da Baía de Armação de Pêra estende-se por sete milhas náuticas (cerca de 12 quilómetros) e é estimado ser um dos maiores em Portugal, onde a beleza subaquática já foi apresentada na BTL - Feira Internacional de Turismo de Lisboa, sendo muito procurada por parte de investigadores e turistas estrangeiros.
(…) "É um local com um interesse científico enorme, que contínua intato, sem nenhuma intervenção humana".

Aproveitamos a operação da libertação de cerca de 50 meros ao seu habitat natural, para «falarmos» de um dos melhores recifes do mundo com quem sabe e que nele mergulha diariamente, ou seja, Miguel Rodrigues.

 

Texto e fotos: João Pina 

Carteira Profissional de Jornalista Nº 4 408

 

Adiado por duas vezes devido às más condições climatéricas na costa algarvia, aos ventos suestes que fustigaram a costa marítima, designadamente, a zona de Armação de Pêra, só a 13 do corrente mês de dezembro, é que depois de capturados na EPPO, os meros foram transportados para a praia dos pescadores da vila piscatória atrás referida e destinados ao repovoamento destes peixes.
Com um pequeno atraso, a transferência dos mesmos para as embarcações que procedeu à sua libertação e que se verificou cerca das 11,00 horas, em plena praia, partindo, depois, os três barcos para cerca de três milhas a fim de serem finalmente libertados para o novo habitat.

A presente operação de repovoamento previamente realizada pelo IPIMAR desde 2001, o IPMA procedeu à libertação de 150 meros (Epinephelus marginatus) na costa Sul do Algarve, entre Quarteira e Armação de Pêra.

“Os meros produzidos e criados na Estação Piloto de Piscicultura de Olhão (EPPO) estão identificados com uma marca amarela numerada, têm entre 3 e 4 anos de idade, pesando entre 700g e 2Kg (média 1,3kg) e medem entre 35 e 48cm (média 41cm) ”, informa o investigador do IPMA, Pedro Pousão, à comunicação social, na praia dos Pescadores de Armação de Pêra, antes de serem lançados ao mar da baía, adiantando: “Os peixes foram produzidos a partir de reprodutores selvagens para serem libertados durante o final do mês de novembro, princípio de dezembro, em colaboração com a Armalgarve (Associação de Armadores do Algarve), a Associação de Pescadores de Armação de Pêra e com clubes de mergulho de Quarteira e Armação de Pêra”.

Segundo, Pedro Pousão: “O objectivo é estudar a viabilidade do repovoamento com esta espécie emblemática para o mergulho e que está praticamente extinta na costa Sul do Algarve, onde já foi comum, tendo sido esta zona escolhida para libertação por ser uma grande extensão de fundo rochoso a baixa profundidade, que é o habitat preferencial desta espécie”. Esta tese é, também, corroborada por Miguel Rodrigues, mergulhador e Presidente da Associação dos Pescadores de Armação de Pêra: “Esta ação conjunta com o sector da pesca e do mergulho recreativo tem como objetivo alertar os principais utilizadores da área de libertação para a colaboração com a investigação no sentido de libertarem os peixes caso eles sejam capturados com vida e para reportarem os avistamentos dos peixes marcados”.

 

A baía de Armação de Pêra é considerada um paraíso para biólogos marinhos e mergulhadores, servindo de casa a mais de 800 espécies, entre elas uma alga protegida a nível internacional. O recife natural da baía de Armação de Pera estende-se por sete milhas náuticas (cerca de 12 quilómetros) e é estimado um dos maiores em Portugal, onde a beleza subaquática já foi apresentada na BTL - Feira Internacional de Turismo de Lisboa, sendo muito procurado por parte de investigadores e turistas estrangeiros.

O recife em causa e, segundo os biólogos marinhos, terá sido criado há cerca de 30 mil anos, após a subida das águas do mar, que cobriram toda a antiga linha de costa."É um local com um interesse científico enorme, que contínua intato, sem nenhuma intervenção humana"referiu o investigador, Pedro Lino, do Instituto Português do Mar e da Atmosfera IPMA),sendo que, o recife cruza debaixo de água três concelhos: desde o Farol de Alfanzina, concelho de Lagoa, até à ponta da Galé, Albufeira, ocupando toda a baía de Armação de Pêra, Silves.

Nos últimos anos foram reconhecidas novas espécies com valor científico, que se mistura com o interesse turístico.

"A ciência e o turismo podem desenvolver atividades em conjunto, que podem contribuir para a preservação dos habitats que existem no local", explicou o especialista do CCMAR.

À riqueza biológica e geológica junta-se também à beleza procurada por mergulhadores. "Já temos mais de duas mil horas de acompanhamento de equipas de investigação", refere Miguel Rodrigues, da empresa de mergulho Divespot, que diz que o recife de Armação de Pera "é um paraíso para os mergulhadores e está nos cinco melhores locais de mergulho de Portugal continental".

(---) “Eu costumo dizer que os peixes têm barbatanas e uns dias andam para a direita e outros para a esquerda. Naturalmente, temos as condições ideais para eles viverem”

 Miguel Rodrigues, que acompanhou o processo desde o IPMA, em Olhão, ou seja, a reprodução destes animais em cativeiro, obviamente, filhos de animais selvagens criados lá, segundo, os investigadores: “Cresceram e se aquela parte do processo já era um sucesso, agora, havia a necessidade de liberta-los para o mar. Antigamente havia muito mais meros na costa do Algarve. Nós temos relatos dos pescadores, o pessoal do mar sabia que era comum haver mais meros. Em Armação de Pêra, todos os pescadores sabiam que até aos anos 90 ainda existiam meros grandes e, infelizmente, como outras espécies deixaram de ser vistas. Agora, houve esta oportunidade de se fazer a repovoação, contatamos o IPMA, uma vez que eu tinha feito parte deste projeto há dois anos, já tínhamos inserido alguns meros no projeto-piloto, porque este é a sequência dessa fase. Chegamos a acordo com o apoio da Junta de Freguesia da vila que nos ajudou, nomeadamente, o camião com o transporte dos animais para cá. Depois, com o consenso geral da Associação dos Pescadores que, fez questão de serem eles, os pescadores, em participar e a levar os peixes para o mar, o seu habitat”.

E, agora, o que vai acontecer aos meros, atendendo, que estão no seu meio ambiente entre centenas de espécies de peixe. Serão capturados pelos pescadores com as suas redes ou abatidos pelos adeptos da caça submarina? Quisemos saber: “Boa pergunta”, diz Miguel Rodrigues, continuando: “Os resultados, obviamente, como projeto de investigação científica, às vezes não são branco ou preto. Um sucesso já foi conseguido de certeza absoluta, foi o facto de terem nascido, crescido e libertados, porém, agora a natureza é que manda”. E, essa natureza vai deixar que os meros continuem pela baía de Armação de Pêra muitos anos, ou através dos mares vão parar a outros lados? “Pois! Eu costumo dizer que os peixes têm barbatanas e uns dias andam para a direita e outros para a esquerda. Naturalmente, temos as condições ideais para eles viverem. Antigamente, era um habitat muito comum encontrar meros de grande porte. Chegamos a ter meros de 30 a 40 quilos, portanto, as condições ideais estão cá o recife, é um fundo típico de meros, digamos a casa própria e de conformo temos aqui. Mas, estamos no inverno, é mar de fora, é levante, as condições do mar mudam, os animais podem assustar-se, arrancar e ir para outro lado qualquer, mas, temos a esperança que alguns fiquem por aqui nestes buracos maravilhosos para eles.

Entretanto, andam centenas de pescadores ao mar, se os meros forem parar às redes, qual será a reação dos pescadores? “Eu penso que neste caso e nesta espécie emblemática como é o melro, os pescadores sabem perfeitamente que os que foram libertados têm cerca de um quilo e meio. Portanto, são muito bebés, e eles atingem cerca de 40 quilos, pelo que só terá um valor comercial quando for um animal grande. O feedback dos últimos anos dos pescadores é muito positivo, muitos deles têm consciência do animal que é, temos tido relatos desta última fase do repovoamento de Quarteira e de Armação de Pêra e eles têm participado muito, devolvido alguns animais ao mar. É claro, que os que já vêm mortos nas redes não há nada a fazer, a não ser contatarem o IPMA e entregarem a marca que foi colocada no peixe e a referência onde é que andavam para conseguirmos fazer o mapa e estuda se eles se fixam ou se vão para outros lados e mares”..

 

Como mergulhador e, também, investigador que o Miguel Rodrigues é, perguntamos o que faz o desportista profissional ao mergulhar em caça submarina ao avistar os meros, dispara? “Eu acho que não. Antigamente havia muitos casos desses, o mero era um animal muito procurado pelo porte e imponência que tem, mas, hoje em dia, há muito mais informação. Nós, neste projeto convidamos alguns campeões, atletas de renome de Portugal com vasto currículo em caça submarina para passar essa mensagem e não houve necessidade. A caça submarina é muito seletiva, é a mais seletiva de todas e eu acredito que hoje em dia o caçador submarino não procura o mero como troféu de maneira nenhuma”. É sabido que existem meros no Oceanário de Lisboa e no Zoomarine aqui bem perto de Armação de Pêra, “aliás, no Zoomarine há meros deste projeto que, também foram repovoados no aquário grande e que as pessoas podem ir vê-los muito próximos”.

 

Em final de conversa jornalística o que pensa Miguel Rodrigues em relação à baia e ao tal recife da praia de Armação de Pêra, onde nos encontramos? “É de facto um grande oceanário, do melhor que temos em Portugal continental. Armação de Pêra está considerado entre os melhores cinco sítios para mergulhar em toda a linha de costa, todo o valor que tem na parte da zoologia este recife aparece depois do segundo degelo em que o mar avançou cá para dentro. O facto de estar a quatro milhas e proteger esta baía, há uma competição enorme na fauna e flora estando completamente habitado. Antigamente, havia muito mais peixe, mas hoje em dia continua a ser um local maravilhoso, obviamente, que é Atlântico e não existem muitas espécies que as pessoas estão habituadas a ver nos filmes, os nemos, os chamados peixes-palhaços, por exemplo, mas, a nossa fauna e flora é lindíssima, temos animais lindíssimos dentro de água”.  

 

A baía de Armação de Pêra ou recife é muito procurada pelos mergulhadores? ”Sim! Sim! Sim! Nós (Dive Spot) estamos aqui sediados há 19 anos e no mundo científico e académico é muito reconhecida a nível nacional e internacional, porque temos condições para mergulhar o ano inteiro. É muito normal no inverno virem portugueses de todo o lado aos fins de semana para mergulhar”.

 

       

 No fundo do mar da Baía de Armação de Pêra, o mergulhador depara e usufrui a olho nu com um autêntico jardim de mil cores de uma extensão a perder de vista e que tem conquistado a curiosidade da comunidade científica. Os investigadores da Universidade do Algarve, em parceria com o centro de mergulho, de Miguel Rodrigues, Armação de Pêra, além da investigação biológica deste recife milenar e cada vez mais fascinante, acabam por divulgar através das suas imagens fotográficas e dos filmes realizados e distribuídos pelo mundo.

 

Por último, como está a divulgação e promoção de todas estas condições magníficas para o desporto e turismo que é a atividade do mergulho e o que gira em seu redor? “Ainda está muito por explorar. Considero que Armação de Pêra continua a ser um «diamante em bruto» e temos ainda muita coisa para melhorar e apresentar para um turismo de qualidade. O mergulho é um nicho de mercado fantástico e por e explorar. Não é só o mergulhador que vai dentro de água, é a família que traz e que fica hospedada na área de Armação de Pêra e que frequenta os restaurantes. É óbvio que esta atividade continua a crescer e é um turismo sustentável de qualidade”.

 

Em jeito de despedida, atiramos ao Miguel Rodrigues, quantas horas passas dentro de água por mês? “Ui! São muitas horas, praticamente quase todos os dias, só quando o mar não deixa é que ficamos em terra, mas sempre que o mar deixa, temos sempre atividades. Debaixo de água, uma média de uma hora e tal, no entanto, com os preparativos do equipamento e da logística envolvente são quatro a cinco horas por dia”, refere Miguel Rodrigues.

 

 

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