Dia: 20 de Ago

Os órfãos éramos nós: Eu de pai vivo e ele de pai morto

Os órfãos éramos nós:

Eu de pai vivo e ele de pai morto

Por: Dinis H. G. Nunes

Vai lavar as mãos, a minha mãe dizia-me isso muitas vezes.

Até que passei a achá-las sempre sujas e comecei a gasta-las.

Fiquei com mãos de velha e por analogia passei a achar as pessoas demasiado impuras.

Havia na sala de jantar um quadro da Sagrada Família e pelos corredores sombrios a sombra tutelar de Salazar.

Acreditávamos na eternidade das coisas e das pessoas e na honestidade intrínseca.

Tudo se dizia por amor de deus e se fazia pela pátria.

Era um mundo tranquilo e mais ainda quando me trancava no quarto à procura de nada.

Talvez dum pai, que não teria consciência, pois nunca o vira. Notava mais quando chegava à escola e todos tinham um.

Excepto o Cristóvão que cedo viu partir o pai. 
Passou a ajudar a mãe no viveiro de flores. 
Ficou um puto triste. 
E parece-me que só eu notei. 
Os outros eram todos muito levianos, ora tinham todos pais.

Os órfãos éramos nós: eu de pai vivo e ele de pai morto. 
Dessa sensação de desamparo nunca me curei. 
 Até o mau hábito da solidão deve ter vindo daí.

Mesmo com família, sentia-me deveras só.

Sobretudo no Natal: ninguém percebia a minha má disposição.

Queria lá saber de tias e primas, até de avós, se não tinha o meu pai? 
Lá vinha a minha mãe a fungar, já lavaste as mãos?

“in Tirocínio Literário”

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