Dia: 25 de fevereiro

“Não, nem pensar, os políticos são mal remunerados. Refiro-me aos políticos sérios, porque outros amanham-se e muito bem”, diz Francisco Amaral Destaque

“Não, nem pensar, os políticos são mal remunerados. Refiro-me aos políticos sérios, porque outros amanham-se e muito bem”, nomeadamente quando os senhores membros do governo abandonam a vida política e se encaixam nas empresas públicas ou privadas, com as quais negociaram como membros do governo. Há vencimentos obscenos, que nos envergonham, e também deveriam envergonhar quem os recebe, se essas pessoas tivessem vergonha”

João Pina

Carteira Profissional de Jornalista Nº 4 408

Francisco Amaral, 63 anos, de Alcoutim, médico desde 1981, autarca desde 1993, primeiro e durante duas décadas como presidente da Câmara de Alcoutim e de 2013 que preside à Câmara de Castro Marim.

É, conhecido, como autarca médico e militante do PSD, aliás e, como mote à presente entrevista, o www.Algarve Mais Notícias.pt recorda as palavras recentes de Francisco Amaral nas redes sociais: “Foi curta a minha passagem pela Assembleia da República em 1999. "Aguentei-me" quase dois meses, antes de chegar à conclusão que não tinha vida para deputado da nação. Nunca tinha ganho tanto dinheiro na minha vida. E feito tão pouco. É mais saudável e mais realizador ser autarca numa Junta de Freguesia ou numa Câmara Municipal. Quando nos deixam trabalhar, o que não é o caso, agora, em Castro Marim. 
Fazia eu parte da comissão de saúde da Assembleia da República com o Carlos Martins, que mais tarde foi Secretário de Estado da Saúde e que agora é presidente do C. A. do Hospital Santa Maria. E na comissão de saúde, defendíamos convictamente o SIM á despenalização voluntária da gravidez, mais conhecida por aborto. Eu, como médico, conhecia muito bem o sofrimento silencioso e a tortura fisica e psicológica das algarvias e das alentejanas, quando recorriam às " abortadeiras de vão de escada" de Faro e de Beja.
A votação ia a plenário no dia seguinte. Bastou um telefonema do Cardeal Patriarca de Lisboa para Durão Barroso, na altura líder do PSD, para a orientação de voto ser outra. No plenário, só meia dúzia de deputados do PSD não respeitaram esse sentido de voto. Eu, o Carlos Martins e, imagine-se, Rui Rio, vice-presidente de Durão Barroso. Dos outros três não me recordo...”

Em contato direto com o médico político, Francisco Amaral e, humanista confesso, questionamos: Como mandatário de Rui Rio à Presidência do PSD nas últimas eleições, em seu entender o que vai mudar no seu partido e que consequências poderão ter no Algarve?“O partido, estou convencido, vai passar a ser melhor organizado, com maior participação dos militantes. Irá ser um partido pela positiva, isto é, não fará oposição por oposição, porque o país estará sempre à frente do PSD. Será um partido mais dinâmico, mais sério, mais credível, um partido preocupado com a sustentabilidade do país e, de certeza, que, com Rui Rio à frente, não irá ao fundo, como já foi mais do que uma vez. O Algarve não tem sido respeitado pelos sucessivos governos, aliás, tem sido mesmo enganado ao longo dos anos. Veja-se o que se passa com a Estrada Nacional 125, as portagens da Via do Infante e o Hospital Central. O Algarve irá ter um interlocutor sério, que não diz uma coisa antes das eleições e depois fará outra”, respondeu, como é apanágio da sua parte, ao que o jornalista insistiu: Os algarvios queixam-se de que a região continua esquecida pelos sucessivos governos, nomeadamente, o pagamento de portagens na A2, poucos incentivos às empresas e populações dos concelhos do interior. Qual a opinião de um autarca com décadas de experiência de governação nessas zonas? Essa é a minha opinião, os sucessivos governos têm enganado constantemente o Algarve e os algarvios. A falta de seriedade na vida política e a falta de respeito para com os algarvios, são diárias. Os “yes-man” no Algarve são muitos, como se os interesses partidários, pessoais ou de grupo, fossem mais importantes que os interesses da região. A décalage entre o litoral e a serra é uma consequência disso. São dois Algarves, a duas velocidades e ninguém se preocupa, por exemplo, em matéria de ordenamento do território, as mesmas leis que são aplicadas ao litoral, são aplicadas à serra, o que eu acho que é uma estupidez”, sublinha Francisco Amaral.

Uma das grandes lacunas dos governos, sejam de esquerda, centro ou centro direita são a falta de construção de um novo hospital central e, designadamente, a falta de médicos e enfermeiros nos serviços públicos, incluindo, nos centros de saúde. Como autarca e médico qual a sua leitura? “É exatamente isso. Esse novo Hospital Central do Algarve, se houvesse respeito e justiça do poder central para com uma região que contribui sobremaneira para o PIB nacional, já estaria a funcionar há muito tempo. Assim, aqui estamos. Por outro lado, a saúde tem sido um parente pobre dos governos. Pelos vistos é mais importante a promiscuidade entre a banca/futebol/política/interesses privados e de grupo, etc., que todos nós pagamos”.

Mudando o teor da entrevista, é abordado o tema – saúde – os médicos admitem realizar uma nova greve de três dias no final de Março. Quais as maiores reivindicações e como se pode solucionar a situação de interesse público e profissional? “Os médicos do Estado não têm sido convenientemente remunerados, como muitos outros setores. Daí, abandonarem os hospitais e centros de saúde e irem trabalhar para a medicina privada. Por outro lado, faz sentido, como tem estado a acontecer nos últimos anos, o recurso a médicos reformados e ser-lhes permitido acumular a reforma e o vencimento. Nesta área não há varinhas mágicas e ninguém inventa médicos especialistas. A saúde também não deve ser uma arma de arremesso da oposição contra o poder e vice-versa. Deve haver mais juízo na classe política e trabalharem todos no mesmo sentido, pela positiva e sem demagogias baratas”.

Como médico habituado às urgências no Hospital de Faro, o que diz à publicação das recentes fotografias no caos das macas com doentes espalhadas pelos corredores hospitalares? “É uma realidade que há que enfrentar de peito aberto, encontrar as soluções e nunca esconder ou varrer para debaixo do tapete. Reconhecer que as coisas não estão bem e tentar encontrar as soluções, deve ser uma prática diária dos políticos”.

Médicos a trabalhar nos hospitais públicos e clínicas particulares. Como político e médico o que tem a dizer? As remunerações dos médicos e enfermeiros são justas? “Têm que recorrer às clínicas privadas, porque não são justamente remunerados. Mas, isso passa-se com todos os técnicos de saúde”, enfatiza o autarca médico, aliás, é pública a sua passagem como deputado pela Assembleia da República em apenas dois meses. Que crítica ainda tece desses tempos? “Foi curta a minha passagem pela Assembleia da República em 1999. "Aguentei-me" quase dois meses, antes de chegar à conclusão que não tinha vida para deputado. Nunca tinha ganho tanto e fiz tão pouco. Preferi ser autarca e lidar diretamente com os problemas das pessoas, tentando encontrar as soluções. Umas vezes consigo, outras não. Gostaria de ter uma varinha mágica".

Já agora e, atendendo, ao trabalho da maior parte dos 250 deputados, em sua opinião, este número de políticos acrescido de assessores pelos gabinetes é necessário? “Esse número é demasiado, para o trabalho que é feito. Muitos estão lá em missa de corpo presente e, acima de tudo, na intriga palaciana. Pensava eu que algumas velhinhas da serra eram cuscas…”, adianta com ironia o antigo deputado de apenas dois meses. E, quanto às remunerações dos políticos desde a classe dos ministros, secretários de Estado, autarcas, incluindo presidentes de juntas de freguesia são compatíveis com a responsabilidade dos respetivos cargos e horários de trabalho em defesa das causas públicas, o ora Presidente da Câmara Municipal de Castro Marim é rápido a responder: “Não, nem pensar, os políticos são mal remunerados. Refiro-me aos políticos sérios, porque outros “amanham-se” e muito bem, nomeadamente quando os senhores membros do governo abandonam a vida política e se encaixam nas empresas públicas ou privadas, com as quais negociaram como membros do governo. Há vencimentos obscenos, que nos envergonham, e também deveriam envergonhar quem os recebe, se essas pessoas tivessem vergonha”, salienta sem papas na língua, Francisco Amaral e, o jornalista desafia o político: Por último, exclusividade dos políticos devido às incompatibilidades, nomeadamente, na classe de deputados? Sim? Ou Não?  ”Sim, sem dúvida. E mais, devia haver um período de “nojo” quando se sai do governo. Os deputados deviam exercer sempre em exclusividade, porque é que os autarcas têm que exercer em exclusividade e os deputados não?"

O cidadão, Francisco Amaral:

Ainda, passa horas na horta tratando das laranjas e da própria terra? “É o meu refúgio quase diário, para destressar dos muitos problemas com que sou confrontado. Além de gostar da agricultura, dos cães, da pesca, da caça, etc".

E, convive com os idosos e menos jovens pelas coletividades, tascas e em visita os munícipes quando andam adoentados? “Gosto de conviver, de beber um copo e de fingir que canto alguma coisa. Gosto de bailes de acordeão e de dançar com as velhotas”.

Ainda, dá consultas aos munícipes no gabinete do presidente da câmara, por sinal, o próprio Francisco Amaral? “Há mais de 30 anos que vou, religiosamente, todas as quintas-feiras, ao Hospital de Faro. Antes fazia voluntariado na urgência, mas agora limito-me a visitar doentes internados e dar-lhes umas palavras de conforto e de ânimo. Também faço a ponte entre os médicos de família e os doentes e os especialistas do Hospital. No meu gabinete, tenho levado a cabo um programa de cessação tabágica, ao qual já recorrem 290 pessoas, com elevada percentagem de êxito".

No seu tempo de Presidente da Câmara de Alcoutim foi implementado a assistência médica móvel numa carrinha com técnicos de saúde à população das aldeias e montes da serra do concelho. Aqui (Castro Marim), implementou a primeira UMS com médico, o que aconteceu para agora ter cessado? “Quando a politiquice e o vale-tudo são mais importantes do que os interesses da população, acontecem estes absurdos. Como não tenho a maioria no executivo, a minha oposição faz de tudo para me dificultar a vida, esquecem-se que a principal prejudicada é a população”, esclarece.

Francisco Amaral é, talvez, o último médico à moda antiga, "João Semana".

Igualmente, o autarca que rompe barreiras e polémicas em defesa da terra e do povo carente. É militante social-democrata, tem arremessos de decisões de “esquerda”. É um bom “conviva” e adepto de boas tertúlias à volta de uma mesa numa roda de amigos, sejam, intelectuais, pescadores do rio, doutores, engenheiros, professores, ou homens e mulheres marcados pelo trabalho de sol a sol no cultivo das terras.

Afinal, como define ou descreve a sua forma de pensar e viver? “Quando se realiza um sonho de criança, quando se faz o que se gosta, quando ajudamos e atenuamos o sofrimentos dos outros, quando ajudamos os outros a serem mais felizes, nós somos felizes. E só isso me motiva. De resto, como costumo dizer à minha querida oposição, é “conversa da treta”, finaliza esta breve conversa jornalística. 

 

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