Napoleão Mira: “O que eu quero é correr mundo, correr perigo” Destaque
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A peregrinação foi cansativa, ou estás pronto para outra? “Sim foi. Estou a precisar de férias das férias. Claro que estou pronto para outra. Amigos, viajar é levar o olhar a passear e eu, tenho inundado o meu de riquezas que muitas vezes não sei descrever”.
João Pina
Carteira Profissional de Jornalista Nº 4 408
Fotografias: Napoleão Mira e Natália Duarte
“Hello Índia here i am agaartein! A caminho de Chennai”, publicou Napoleão Mira no seu mural do Facebook, no dia 4 de janeiro do novo 2018 e, foi com este «post» que o jornalista soube de mais uma viagem por terras da Índia e de outras pelo oriente. Disto isto, aliás, escrito, ao ter conhecimento de mais uma aventura:“Bons dias, Napoleão. Boa e excelentes viagens para memória futura”e, o jornalista, ora amigo, prosseguiu em jeito de comentário e provocação: “Pensei de súbito, sabes que sou repentista a falar e a decidir, como viajar é contigo, podemos contemplar os leitores do www.algarvemaisnoticias.pt para o que proponho remeter algumas questões às quais agradeço umas respostas por mensagem no Facebook ou por mail, uma espécie de diário à pressa e de mangas arregaçadas com fotos”.

Mãos à obra:
Mais uma viagem? Para além do espírito “viajante” conhecedor do mundo, o que te leva e motiva a viajar?
“Depois do Peru e Bolívia decide com a mulher, Natália Duarte regressar a este subcontinente que é a Índia. Já cá tínhamos estado há dois anos, viajando pelo norte deste país singular. Desta feita, resolvemos viajar para sul. Viajamos de mochila às costas sem destino, tanto que amanhã é, dia de partida e ainda não sabemos bem para onde ir, talvez Paducherry, uma antiga colónia francesa. De qualquer modo esta, apesar de estar no início, tem sido um poço de surpresas. No momento em que escrevo estamos em Mamallapuram um santuário à beira-mar onde aportam indianos aos milhares. As pessoas do sul são mais simpáticas”, replicou Napoleão Mira e, de volta do correio virtual, quis saber: E que tal a alimentação? “A comida é vegetariana, mas, boa e as sensações são as melhores. Continuo a pensar que viajar: é levar o olhar a passear. Por isso e por estas bandas os meus olhos têm-se regalado com o que lhes é dado presenciar. De facto, estamos na presença de um povo único e hospitaleiro, mas claro sempre com a ideia de negócio plantada, ou não fossem eles indianos”, uma pausa no teclado do portátil, pensamos e continua a escrever: “O que me leva a viajar, para além de passear o olhar, é sobretudo o prazer da descoberta, o surpreender-me em cada esquina, experienciar o que nunca vivi e, acima de tudo, por saber que apenas temos uma vida e haver tanto para garimpar. E como dizia Caetano Veloso: eu quero é correr mundo, correr perigo. Eu quero dar o fora, eu quero é ir embora. E quero que você venha comigo. Forte abraço que tenho de ir jantar”, acentuou Napoleão Mira.
Entretanto, dou uma vista de olhos pelas imagens fotográficas captadas, umas por Natália Duarte, a mulher companheira de tantos anos, a fã número do Napoleão Mira e uma excelente profissional de turismo no Tivoli Hotels & Resort e outras fotos pelo próprio viajante e, ainda outras por locais. “Ah! Esta viagem longínqua já é a quinta. Espero viver o suficiente para fazer mais 10 pelo menos”, recebi de seguida esta pequena resposta a que acrescentou: “Agora são 17,30 horas, ou sejam, 5,30 horas de diferença”, e escreveu de seguida: “Ah! Já coloquei mais umas fotos bastante interessantes referentes ao dia de hoje à tarde na verdade, uma terra que parecia não ter nada, afinal, tinha toda uma magia que transborda na alegria e no rosto das pessoas, agora vamos jantar”.

Como referido no início da presente reportagem virtual, mas verídica e, dando tempos para que os meus amigos viajantes por terras da Índia, jantem e respondam a outras questões enviadas daqui dos «Algarves» do Atlântico, recordamos mil e uma conversas tidas em centenas de horas e de quilómetros por esse país real à volta da música e dos poemas falados pelo Napoleão e sobretudo por ainda termos o Natal no pensamento:
Idos Natais e Artilheiros do Benfica
"Todos os anos, mais ou menos por esta altura, tento a escrever sobre a quadra que atravessamos. Já o fiz de várias formas, sob variados ângulos e abordagens. Mas este ano, sobretudo este ano, não me sinto com vontade de pintar de cores celestes o cinzentismo dos dias que atravessamos.
Prefiro recuar no tempo, regressar à memória, esse território de conforto de que tantas vezes me socorro.

Hoje é dia 24 de dezembro de 1979. Fui pai, de novo, há poucos meses. Nasceu-me o meu único filho varão, de seu nome Samuel. Tenho vinte e três anos e sou recepcionista de hotel em Lisboa. Trabalho de noite, regra geral, das onze da noite às oito da manhã. Tal quer dizer que conheço melhor a cidade pelas suas sombras, do que pela luz que a tornou famosa.
Hoje, 24 de dezembro, teimo em afirmar que não gosto do Natal. Há muito que lido com desdém com a data que hoje se assinala. No caminho para o trabalho, que faço mais cedo para que o colega que vou render jante com a família, penso na tristeza da noite que terei pela frente. A cidade, à hora que saio de casa, é uma urbe deserta. No transporte que me conduz ao meu destino, sou um dos três únicos passageiros. Eu sei para onde vou. Os outros, pelo seu olhar, parecem-me ir para lugar nenhum. Na minha imaginação, são apenas dois viajantes solitários dando voltas de autocarro até que este recolha à estação.
Encosto a cabeça ao vidro e sinto pela primeira vez uma sensação de vazio. Esboço corações na névoa do vidro utilizando a condensação da minha respiração. Desenho dois, um por cada filho. Penso que talvez tivesse sido bom ficar em casa junto deles. Um calafrio elétrico percorre-me a espinha, obrigando-me instintivamente a correr até ao pescoço o fecho do casaco.
Já no hotel, as pessoas rareiam e a vida é quase invisível. Os poucos hóspedes recolhem aos seus aposentos ou demandam casas de amigos.
Como acontece todos os anos, alguns dos meus comparsas hão de me telefonar. Se aparecerem, com eles repartirei as couves e o bacalhau que me deixaram para a minha solitária consoada. João de Castro, cliente do local onde trabalho, tem por mim um carinho especial. Vá-se lá saber porquê, chama-me “Fruta” desde que me conhece. Deixa o carro a trabalhar, entra a correr no hotel e deposita em cima do balcão uma caixa com doze meias garrafas de vinho tinto do Dão, dois bacalhaus e duas caixas de chocolates.
«“Fruta”, isto é para ti. Feliz Natal para ti e para os teus. » — disse, batendo com palma da mão na caixa, ao mesmo tempo que desaparecia no breu da noite, quase sem me deixar agradecer, o generoso “Pai Natal” daquele ano de 1979.

César Martins de Oliveira foi o primeiro jogador estrangeiro contratado fora de Portugal para representar o Benfica.
Chegou ontem a Lisboa. É a primeira vez que vive fora do Brasil e é também ele um homem só. Admira-se com o silêncio da cidade. Sinto que dele se apodera uma certa melancolia e convido-o a dividir comigo o repasto natalício. Noto-lhe, agradecido, um certo brilho no olhar. Não conhece por enquanto ninguém em Lisboa e rejubila com o meu convite.
Somos rapazes da mesma idade e logo ali criámos uma amizade que há-de durar enquanto jogar no Benfica.
Estávamos nós de volta do bacalhau e a descobrir afinidades quando, de repente, toca a campainha.
Espreito. Do outro lado da porta de vidro, um vulto. Um homem alto, vestido de ganga, cabelo e barba compridos, esfrega as mãos ao mesmo tempo que assopra para dentro delas o ar quente que expira. Está fria esta noite de consoada.
Aproximo-me com algum cuidado. A figura do outro lado do vidro não me inspira confiança. Não pode ser cliente. Todos os hóspedes já recolheram aos seus aposentos, excepto César que reparte comigo a solidão desta noite.
Quando a figura do outro lado do vidro me olha nos olhos, reconheço-a de imediato, franqueando-lhe a entrada.
«Vítor Baptista! Entra. O que fazes por aqui? Posso ajudar?» — perguntei, curioso e surpreso, ao deparar-me com o grande artilheiro do Benfica, que sabia ter caído nos abismos da toxicodependência.
«É pá, Napoleão, desculpa lá, até pensei que não me reconhecesses. Estou numa aflição. Estou ali na pensão em frente com uma miúda, não tenho fósforos e não sei onde os conseguir numa noite como esta. Não me arranjas uma caixa?» — implorou envergonhado “O Maior” — como se intitulava — que se notava a olhos vistos estar em franca degradação.
Ainda o convidei a comer connosco. Como recusou, abri a caixa de vinho que me foi ofertada, e reparti-a com ele. Arranjei-lhe um saca-rolhas, a tal caixa de fósforos e vi-o atravessar a rua, entrando na pensão.
Regressei algo consternado para junto do César. Contei-lhe o percurso do Vítor como jogador. Lembro-me até de lhe ter contado o episódio do último golo que este apontou pelo Benfica em Alvalade, perdendo o brinco ao efetuar o disparo que ditaria o resultado. Ao sentir falta deste, não celebrou o golo e pôs toda a gente à procura de tão dispendioso adereço durante largos minutos... Incluindo o árbitro
No final do jogo, disse aos jornalistas que não festejara porque o brinco era mais caro que o prémio de jogo.
Episódio caricato, no qual César nem queria acreditar.
Só hoje, ao rememorar este episódio natalício, me dei conta do simbolismo dessa consoada de 1979.
“O Maior”, já mora nas planícies eternas. Ao César, perdi-lhe o rasto. Sobro eu e a minha demência, escrevendo sobre idos natais e artilheiros do Benfica". Do livro “De Coração D'interiores” de Napoleão Mira”

“Já tenho mais respostas do Napoleão, vamos a isto que se faz tarde e os leitores estão curiosos pelos passos do casal”, raciocino. “Não me vejo a fazer estas incursões sozinho, tanto mais que a Natália é que me meteu nisto e é ela que trata das burocracias da viagem. Se bem que por aqui se encontra muita gente a viajar sozinha, são normalmente gente jovem, para além de que eu sou diabético, o que tornaria a coisa mais arriscada, caso tivesse uma crise por aqui. É claro que com a Natália é outra coisa. Ela é mais aventureira que eu e muitas vezes vamos a locais que sozinho não me atreveria a ir. Viajamos low cost, portanto ficamos instalados em guest houses, e por vezes ficamos mal instalados. Dou-te um exemplo: ontem em Chennai, cidade de que não tínhamos referências, fomos dar a um sítio tipo Cova da Moura, mas dez vezes pior. Andámos às voltas até que um tic-tic nos levou a uma hospedaria, que se ta descrevesse em pormenor assustavas-te. Basta dizer que não tinha casa de banho, lençóis ou mesmo papel higiénico, mas a casa era gira e decidimos ficar. Comemos na rua e em restaurantes indianos de baixo custo, mais ou menos 3 ou 4 euros por pessoa, dependendo se bebo uma cervejinha. Comemos comida vegetariana que é a mais barata. Acabei de comer um arroz de legumes frito que estava divinal por 2,50 euros”, escreveu Napoleão e, aproveitando a tal pausa no teclado, atirei: E aquela fotografia onde estás num qualquer sapateiro? “Aquele sapateiro fez-me por medida uns chinelos de cabedal. Custaram a módica quantia de 300 rupias, 4 euros. Naquela foto estava a encomendar mais dois pares, um para a minha filha Catarina, outro para o seu namorado o Martin”, e sublinhou à cena do «sapateiro» “Se pudesse regressar com alguma frequência ao meu Alentejo, claro que poderia morar numa destas paragens. Um viajante que conheci ontem, vive na Ásia há 37 anos entre a Tailândia e a Índia com o dinheiro que recebe da renda da sua casa na Holanda. E olha que há muito mais gente a fazer estas opções que possas julgar. Pode-se fazer uma vida desafogada se tiveres 1000 euros de rendimento”, despediu-se por hoje com um “Abraço”, explicou Napoleão Mira.

Recuperando algumas notas recebidas em relação às imagens fotográficas: “Por recomendação do Luxman Miracle - o senhor que está ao meu lado, fomos comer a restaurante típico indiano. Comemos com as mãos numa folha de bananeira o petisco por ele recomendado. Este holandês vive há 37 anos na Ásia entre a Tailândia e a Índia. Chamei-lhe milagre porque estávamos a precisar de um, aliás, naquela foto da prima balerina num festival a que assistimos graças ao Luxman Miracle. Aqui vai um pequeno álbum da nossa passagem por Mamallapuram. Amanhã outro destino. Como vamos para onde o vento nos levar, ainda não sabemos para onde iremos. De certeza que será uma nova descoberta esta zona da Índia que nos surpreende a cada dia que passa, noutra foto, vê-se em Chennai o gerente do hotel onde pernoitaremos esta noite. Xpetáculo!! Mas por 7 euros estavam à espera de algum Sheraton, não!”
Se esta reportagem passasse num cinema ou na televisão, seria a altura ideal para um intervalo a fim de o canal descarregar 10 minutos de anúncios, mas, não e, dando umas horas de descanso ao Napoleão Mira e, ainda em tempo de Natal, oferecemos mais um conto do já consagrado escritor, dizer de poemas de sua autoria e também viajante pelos mundos seus…

Um Conto de Natal Quase Verdadeiro
"Hoje é sábado. Um sábado de dezembro. Um sábado em que uma estúpida melancolia natalícia se apoderou de mim.
Sou um gajo de altos e baixos. Um fulano de profunda tristeza ou de exultante alegria. Um sujeito com ímpetos de cortar os pulsos à facada ou de subir ao cume de um monte e proclamar aos quatro ventos e a plenos pulmões o júbilo de estar vivo. Um tipo capaz de mergulhar em novos e arriscados projetos ou entrar em prolongada e profunda depressão. Sou assim uma espécie de oito ou oitenta: dentro de mim, em certos dias, vive Helenah, noutros, Dionísio!
É nesta montanha russa de estados d’alma, neste permanente ziguezaguear de contraditórios espíritos que vou construindo o meu percurso. Bem... tudo isto para vos dizer que hoje é sábado. É sábado, e apoderou-se de mim uma estúpida melancolia natalícia.
Hoje é sábado de um qualquer dia de dezembro de um século que já passou, de um ano que já não volta, mas que o calendário teima em afirmar que é 1961. Minha mãe brada por mim e pede-me para lhe ir fazer um mandado. «Vais ali à Loja Grande e trazes um cruzado de café, vais num pé e vens no outro, o tostão que sobra é de melhadura.»
Minha mãe retirara-me ao pensamento em que estava absorto e que consistia em tentar perceber se os pretos eram pessoas. Eu nunca tinha visto nenhum preto na minha vida e, no dia em que nos fomos despedir da família Cabo Silva, o patriarca Luís dissera às pessoas que aí estavam para a função do adeus, que ia para África guardar pretos com um chicote, coisa que se me afigurou pouco humana, logo, motivo para a dúvida permanente que de mim se apoderou.

A Loja Grande, assim chamada por ser a maior da vila, pertencia ao senhor João de Brito Palma. Aos meus olhos de petiz, era um imenso caleidoscópio de mercadorias.
As prateleiras, tulhas, sacas e caixas estavam permanentemente recheadas de víveres que ao tempo se vendiam a peso ou à unidade. Ao fundo da loja, havia toda uma panóplia de artefatos que na minha fraca lembrança me dava a ideia de ser uma babilónia de riquezas dignas do maior dos Alibabás.
— Jacinto, quero um cruzado de café e um tostão de migalhas de bolacha. — pedi, mostrando a moeda de cinco tostões necessária.
Jacinto saiu detrás do balcão, rasgou um quarto de folha de papel pardo, humedeceu com cuspo os dedos e, com a destreza de quem já fez milhares, enrolou mais um minúsculo cartuchinho em forma de cone que depositou na balança já com a quantidade de chicória (a que chamávamos café) que os seus afinados dedos estipulavam ser o peso certo.
Com a medideira numa mão e o olho no ponteiro da balança, deu por finda a operação, fechando o cartuxo com os dedos de uma mão e jogando com a outra para dentro da lata o artefato de medir.
— Agora vamos às bolachas. — disse.
À medida que Jacinto abria a metálica e redonda tampa da caixa das bolachas, arregalavam-se-me os olhos, salivando sem parar, numa ânsia de quem está prestes a experimentar uma sensação digna de ser apreciada lenta e preferentemente de olhos fechados.

Já com os dois cartuxos na mão e fazendo menção de sair, tentei a minha sorte com uns rebuçados que me estavam a fazer crescer água na boca, e disse:
— Jacinto, dás-me um rebuçado?
— Não te posso dar rebuçados porque não são meus. — respondeu Jacinto quase, quase a ceder.
— Então dás-me dois, que eu dou-te um a ti! — respondi em manobra desconcertante que fez o jovem marçano meter a mão dentro da lata e oferecer-me a ansiada guloseima, ao mesmo tempo que punha o dedo indicador ereto sobre os lábios em sinal de cúmplice silêncio. Sorri agradecido e, já de abalada, resolvi perguntar:
— Sabes se os pretos são pessoas?
Jacinto olhou para mim, encolheu os ombros e respondeu:
— Não sei, nunca vi nenhum!
Já na rua, ao dobrar a esquina, dou com o meu amigo Manel António que logo ali me convidou para a nossa brincadeira preferida: construir casas de palha e barro, coisa que nos deixava sempre assim para o irreconhecível, ou como quem diz, cobertos de barro dos pés à cabeça.

A minha mãe, com o cartuxo do café numa mão e com a outra em forma de raqueta, afirmava que, se aparecesse sujo, experimentaria a especialidade com que me ameaçava.
É claro que era impossível construir uma aldeia inteira de terra, palha e água e aparecer imaculado em casa.
Estávamos os dois muito entretidos a erguer paredes, quando lhe perguntei: «Sabes se os pretos são pessoas?»
Manel António olhou para mim espantado e respondeu ao mesmo tempo que limpava as mãos ao bibe. «Não sei, nunca vi nenhum!»
O Natal aproximava-se a passos largos e, apesar dos nossos desejos serem sempre na proporção do que nos rodeia, tanto eu como os meus irmãos lá formulámos os nossos ao Menino Jesus que religiosamente, e naquele dia, desceria pela chaminé da nossa imaginação e nos traria os presentes ansiados.
Nessa noite de 24 de dezembro fomo-nos deitar depois de mais uma vez, e à roda do lume, termos voltado a pedir ao Menino que nos contemplasse com os nossos desejos.
Pela calada da noite, quando toda a gente dormia, pareceu-me ouvir um barulho estranho vindo lá dos lados da cozinha. Cheio de medo, aventurei-me a ver o que se passava. Aterrorizado, dei com um pequeno vulto de volta dos nossos sapatos depositando uns quantos presentes.
Quando dele me abeirei, perguntei-lhe:
— Quem és tu? Tu és o Menino Jesus?
Assustado, respondeu-me que sim, mas que deveria guardar segredo, até porque ninguém iria acreditar.
— Mas tu és preto, ou estás tisnado da chaminé? — Questionei, abismado.
— Esta é mesmo a cor da minha pele, assim como a do meu pai, da minha mãe e a das outras pessoas lá de onde eu venho — retorquiu. — Sei dessa tua inquietação. Para além da prenda que tenho para ti, o melhor presente é ficares a saber que, por debaixo da minha pele, bate um coração igual ao teu, com os mesmos sonhos e desejos e, se o mundo fosse governado por crianças, a cor da pele seria a coisa que menos importaria. — afirmou, num tom filosófico de quem detém todos os poderes do universo.
— Agora tenho de ir, mas não te esqueças do nosso segredo! — disse, voltando por artes mágicas a subir pela chaminé.
Quando minha aflita mãe me acordou aos gritos, estava eu estendido junto ao madeiro no lume, que alguém inexplicavelmente fizera com que ficasse aceso pela noite adentro.
Ainda estremunhado, lembrei-me do meu noctívago encontro e, enquanto minha mãe me levava ao colo de regresso à cama, abracei-a. Num súbito e compulsivo choro, supliquei-lhe: Mãe, quando escreveres ao Cabo Silva, pede-lhe para não bater nos meninos pretos!", do livro “De Coração D'Interiores”, de Napoleão Mira

Acerca das múltiplas imagens, Napoleão Mira referencia algumas notas curiosas: “De comboio não (é um risco andar), mas de autocarro sim... É pavoroso e exaspera-se”, “De comboio não (é um risco andar), mas de autocarro sim... É pavoroso e exaspera-se”, adiantando “Não podes mudar de ideias e dizer: já não quero estar aqui... Não tens alternativa. No momento em que escrevo estou com receio do autocarro que vou apanhar amanhã. A experiência anterior foi assustadora e durante 7 horas sem comer, urinar ou mexer um músculo...”. Noutra nota, afirma: “Aqui são quatro horas da manhã e não consigo dormir com o barulho de um motor. É a Índia como bem sabes”, “não, não sei, digo para os meus botões”.
"E pronto! Nas feiras e nas férias tenho dois fetiches. Nas feiras compro colheres de pau, nas férias faço a barba. Aqui vai a prova da promessa cumprida”, sublinhou, referindo a fotografia em que está sentado num barbeiro local. Em relação a outra imagem em que está descalço: “Estou descalço… Isto é um templo, não se pode entrar calçado”, escreveu para se despedir temporariamente e “bom ano para ti também velho amigo”.
Depois de alguns dias sem notícias de Napoleão Mira e Natália Duarte e, segundo as notas jornalísticas, o casal algarvio iniciou a viagem aterrando em Mumbai, onde permanecemos dois dias, média de dias que ficam em cada cidade. “Daí apanhámos um avião que nos levou a Chennai, capital do Tamil Negu. De Chennai fomos para Mamallapuram onde permanecemos outros dois dias. Saímos de Mamallapuram e fomos para Paducherry, ex capital das Índias francesas. Daqui apanhámos um autocarro local (dia de pesadelo) para Thanjavur. De Thanjavur fomos para Manurai”, informou, para depois comunicar: “Hoje saímos de Manurai e estamos no Tiger Reserve de Periyar”.
Quanto à experiência por terras da Índia, Napoleão Mira é peremptório nas afirmações repentinas e a quente em termos emocionais dada a distância e à forma como decorre a reportagem em termos jornalísticos: “De resto vamos indo com o vento e até onde o dinheiro que metemos no bolso chegar”, enfatiza, ao que questionamos na volta do correio (ah! ah! ah! E os custos são acessíveis? “Como viajamos em low coast, ficamos quase sempre instalados em hospedarias modestas, desde que sejam limpas, tenham um banho, ainda que rudimentar, mas privativo, que tenha net, não tenha bichos e que custe no máximo 1000 rupias, na nossa moeda cerca de 13 euros”, prosseguindo: “A nossa alimentação é feita um pouco como o nosso alojamento. Comemos em estabelecimentos locais onde os demais indianos comem. Apesar de me fazer alguma impressão ver comer com as mãos. Procuro na medida do possível experimentar coisas novas. Eu não sou muito afoito nessa matéria, a Natália é que é. Pela minha parte, quando a coisa não me satisfaz tenho a solução do arroz frito, que é sempre um bom plano B. De manhã é, que não atino com os pequenos almoços deles, rios de molhos, arrozes e outras coisas picantes que me provocam ânsias só de para elas olhar”.

“Gostava de estar escondido e ver a cara do Napoleão, um bom garfo e habituado aos hotéis de 5 estrelas e também às boas tascas com os enchidos alentejanos e o seu queijo de Entradas”, penso, enquanto leio o que ele vai escrevendo e enviando. Já quanto aos costumes do povo indiano, é de opinião: “Os costumes desta gente, nada têm a ver com os nossos. Trabalham desalmadamente e desconhecem isso dos direitos do trabalho. Um exemplo: um recepcionista de um pequeno hotel onde pernoitámos, de cada vez que ia à recepção lá estava ele. Perguntei-lhe se era dono ou familiar do mesmo. Que não, que era empregado. Quando o questionei acerca da sua folga, sorriu e disse que era no dia seguinte, pois tinha trabalhado 15 dias seguidos, 24 horas por dia e agora teria direito a um ou dois dias de folga”, escrevo, ao mesmo tempo que coço o queixo e passo os dedos pelos cabelos por constatar com a escravatura deste povo. “Hoje perguntei ao cobrador do autocarro quantas horas trabalhava. Disse-me a sorrir que no mínimo 20 horas. Não era por semana, era por dia! Depois esta gente é muito crente. Tem muito ritual, muita cerimónia religiosa que varia de região para região, sendo que os deuses (diz-se que podem ser trinta milhões) também mudam de nome e às vezes de identidade de templo para tempo, como se diz na nossa terra - não tenho carta de condução para esta cilindrada religiosa - depois eu sou agnóstico, logo com uma noção de lógica bastante enraizada”, confessa o poeta declamador afamado. “Acredito, sim na e evolução humana, mas, isto era conversa que nos levaria por outros caminhos. A sociedade é patriarcal, logo vivem todos em torno desse pilar que é o patriarca da família. As mulheres têm poucos direitos, se comparadas com as nossas e também vivem em função da vontade matriarcal”.
Napoleão Mira, além de poeta e, igualmente escritor, ao longo destas cinco viagens intercontinentais já anotou centenas de anotações e milhares de fotos, demasiado material para alguns livros, aliás, os leitores através desta humilde reportagem podem constatar tão diferente usos e costumes dos povos para lá da Europa Ocidental.
“Como se sabe, a sociedade é compartimentada por castas, mas, este é um tema que tenho algumas dúvidas, até porque não o compreendo na perfeição e ninguém mo soube explicar de modo convincente. Em termos religiosos é maioritariamente Hindu, mas numa Índia plural cabem os mais diversos credos, desde os muçulmanos, cristãos, Sikhs, ou mesmo budistas de entre outras religiões por este imenso território professadas. Os indianos, na minha opinião, têm tanto de fossões como de ingénuos. No que diz respeito aos mitos urbanos e rurais acreditam em tudo e desde sempre. Digo isto baseado nas pessoas que fui conhecendo, e que, regra geral, são gente do povo com quem me cruzo e me procura dar a volta para sobreviver”, refere o nosso interlocutor.

Outro tema abordado por Napoleão Mira é a famigerada política: “Em relação à política local pouco sei. Compreendo que este imenso país é uma democracia e que nela cabem todos os partidos e assim sempre foi desde os tempos de Gandhi. Creio que, presentemente, estão em tempo de eleições regionais. Tenho visto alguns comícios na rua e eclodiu mesmo uma greve geral no dia da nossa chegada a Mumbai. Essa greve impressionou-me porque, ela era mesmo geral. A cidade não estava parada, estava paralisada. Quem se lembrar de furar a greve sofre consequências severas e graves e ninguém arrisca. É claro que isto é pouco democrático, mas que é muito efectivo disso não restem dúvidas. Depois, ao longo dos dias e, até ontem, temos vindo a sentir a greve que se faz sentir nos transportes. Isto para dizer que, por um lado existe uma força sindical com uma força muito grande, mas depois na prática as pessoas continuam sem saber o que são os direitos do trabalho. Acho que nesse particular ainda têm um longo caminho a percorrer”, esclarece.
Um país de paradoxos, pensamos: “Depois, este é um país de contradições e de várias velocidades, aliás, é um colosso emergente cada vez com gente mais qualificada e de entre a mais qualificada eles são a nata do conhecimento científico. No entanto, a corrupção há-de existir e em grande, mas não me sei pronunciar acerca dela, até porque o indiano com quem convivo não é suficientemente politizado ou informado para que eu possa formar uma opinião”, argumenta Napoleão Mira.
Outro tema – a cultura – uma vez que Napoleão que é um homem da cultura não deixar de opinar: “Em termos culturais este é um país riquíssimo. A sua cultura é milenar e única. No que diz respeito às artes chamadas plásticas, existem por aqui tantos artistas e artífices tão bons que se vivessem na Europa seriam gente com muito sucesso artístico e monetário. Assisti aqui a um concerto de música carnática, que deve estar para eles como o fado está para nós, pujante e viva. Toda a gente se recorda de Ravi Shankar e as parcerias com os Beatles só para dar o exemplo que me ocorreu. Bollywood com as suas cidades cinema, produz mais que Hollywood e por aí a fora. Em relação à escrita não conheço escritores indianos, mas sei que o nosso José Luís Peixoto, está por cá para apresentar o seu primeiro livro: Morreste-me, com tradução para hindu, e isso é uma demonstração da vitalidade desta cultura a todos os títulos notável. Para finalizar diria: Toda a gente deveria uma vez na vida vir à Índia. Devia partilhar o modo de vida desta gente, comer da sua comida, dormir debaixo dos mesmos tetos, viajar nos mesmos transportes etc. Sei que esta é uma opção que torna a coisa algo dura, mas que saímos daqui muito mais ricos, disso não restem dúvidas”, finalizou por hoje, dia 13 de janeiro, o relato possível a partir da Índia para o Algarve. “A partir daqui, apenas sei que lá para dia 22 temos de estar em Kochi (antigo Cochin) para voarmos para Portugal”, despediu-se Napoleão Mira.
Entretanto, a 14 de janeiro e, como a vida de viajante é, viajar, Napoleão Mira e Natália Duarte, surpreenderam-nos com mais uma experiência turística por terras da Índia, ora, vejamos: “Olá pessoal... Depois de abandonarmos a zona dos templos (já estava farto de tanta beleza!) aqui nos eis chegados ao profundo e imaculado verde da província de Kerala. Também, quero, afirmar que não voltarei a andar de elefante. Acho a experiência humilhante para o bicho que tem de repetir este circuito, qualquer coisa como vinte vezes por dia. Pela minha parte fica a foto para a posteridade e o meu pedido de desculpas ao simpático paquiderme”.

Generosa Índia
“Para os poucos que não sabem, as nossas viagens começam com um bilhete de avião e uma noite de hotel que regra geral é a única marcação antecipada e sempre a pior! A partir daí traço uma linha para norte ou Sul, o Napy concorda e lá vamos nós. Quem vai por bem recebe sempre bem”, desabafaram Napoleão e Natália.
“Este blá blá blá para dizer que nunca uma viagem foi tão low cost como esta, isto porque mais que tentemos os meios de transporte que conseguimos são só os governamentais, Índia profunda 99 por cento das vezes somos os únicos brancos no autocarro ou carruagem, ou mesmo no hotel! Tudo isto para dizer que tirando uma viagem de autocarro que de quatro passou a seis horas e que mudaram o destino quatro vezes dentro do mesmo trajecto, tenho a dizer que o sistema funciona e é altamente eficaz, e a menos de um cêntimo ao quilómetro”, diz Natália Duarte.
A propósito de uma foto de um autocarro com grades, Natália confirma: “Sim os autocarros têm grades, são sujos e os motoristas são lunáticos, mas funciona e as gentes são de uma generosidade que só encontras na Índia. Atrevam-se Namastê”, finaliza por hoje, “acho que nunca escrevi tanto…”.
Neste dia, que pensamos que tenha sido a 14 de janeiro, foi passado num destes barcos/ casa e mergulhar nos canais de Cheepunkal - Kerala Índia (ver fotos).
Noutras fotos, Napoleão Mira, brinca, sinal, que anda bem-disposto: ”Então e que me dizem deste senhor? É o dono da guest house onde por esta noite pernoitaremos. E mais não digo...deixo os comentários ao vosso critério”. E de Kerala, recorda a viagem ao lado do cobrador (ver foto) do autocarro. “Olha que belo casal. Pela maneira como me deu o braço a coisa promete… “
“Relatos de viagem a que chamei “OLHARES” e que será editado nos próximos meses”, conta Napoleão Mira
Passaram uns dias sem resposta dos amigos, Napoleão e Natália e, enquanto jornalista pensava que algo se deveria estar a acontecer, eis que surgem notícias: “E pá, agora que já estou a regressar mentalmente à Índia rebobinando as experiências vividas, remeto aos teus e meus leitores para o livro que estou a preparar sobre a minha experiência indiana nas duas viagens que aí fiz”, leio de empreitada, é mesmo muito texto, penso. “Primeiro ao norte deste país e depois ao sul e a travessia de lés-a-lés, da Baía de Bengala até ao Mar Arábico atravessando os estados de Tamil Nadu e Kerala. Na verdade passámos essa última semana em Kerala, mais própriamente em Marari Beach e Cochin, ambos à beira do Arábico. Como é sabido viajamos à indiana, nos seus autocarros, comboios, Tuk-tuks, táxis etc, entre outras situações onde tivemos as experiências mais incríveis, tanto mais, que em muitas das zonas por onde viajámos éramos os únicos brancos num vasto raio geográfico. Se viajávamos nos seus transportes, ficávamos instalados nas suas casas, dormindo em quartos que estes alugavam, comendo à mesa com eles, sentindo desta forma o pulsar das suas vidas, razão principal desta viagem. Costumo dizer que a nossa maneira de viajar está mais próxima da antropologia que do turismo. Viajar deste modo tem tanto de enriquecedor como de extenuante. Em determinados momentos quisemos desistir. Quisemos sair dali. Porém, quando a coisa passava sentíamos que tínhamos dobrado o nosso próprio cabo das tormentas e que havíamos saído mais ricos desses episódios limite onde nos vimos envolvidos e que vou deixar para os leitores desses meus relatos de viagem a que chamei “OLHARES” e que será editado nos próximos meses”.

Napoleão Mira escreve como fala, “como forma de aperitivo, deixo aqui aos leitores, aquela a que chamo: escrita instantânea, matriz que escolhi para estes relatos em forma de crónica instintiva”.
Dia 17 de janeiro em Marari Beach: “Hoje tive um acordar aldeão. De certo modo, regressei aos hábitos da minha terra. É certo de que acordei num barco ancorado à porta do barqueiro, mas a azáfama matinal que se faz sentir lá fora, é em tudo idêntica àquela que aconteceria na minha aldeia, caso lhe passasse um rio navegável pelas entranhas”, diz Napoleão Mira, adiantando: “Saio à rua. Impõe-se o silêncio dos despertados. Dos que embora acordados, ainda não largaram os braços de Morfeu, ou então, dos que fazem desta serenidade matinal um elogio à vida. Passeio pela quietude da língua de terra rodeado de água de um lado e outro. Uma mulher à frente do barco com uma vassoura de palma, varre acocorada e em silêncio as folhas perecidas que tombaram durante a noite. O ruído desta vassoura, transporta-me de novo para o meu quinhão e, esta senhora que em passe ritmado limpa o seu pedaço de rua, já não é mais uma aldeã indiana, é sim a Maria Antónia, mulher do Pereirinha a varrer a sua. Se fechasse os olhos e fosse dia de verão, quase que reconheceria a Maria Antónia pelo sincopado da sua varredura. Mais à frente, um outro homem de sabonete e escova de dentes na mão entra destemido no rio. Mergulha à beira de água e quando volta à tona começa a fazer a sua higiene diária.
Não o quero importunar com o olhar de metediço e sigo o meu caminho. Do outro lado da rua, um outro homem sentado à soleira da porta lê no jornal as notícias matinais enquanto a mulher lhe prepara um café. Todas as casas têm idosos.
Sinal de que por aqui, tomam conta uns dos outros até à contagem final dos dias. Com todos os que na rua comigo se cruzaram, novos e velhos, homens ou mulheres, adultos ou crianças, todos, mas mesmo todos, me sorriram e cumprimentaram num gesto de boa educação”, filosofa o poeta escritor vagueando pela utopia do pensamento. E, pelos vistos, o viajante algarvio de Entradas, regressa ao seu Alentejo por terras da Índia. “No regresso ouço uma buzina igual à do Joaquim padeiro lá da minha terra. Acelero o passo para ver se a memória não me atraiçoa. É que de repente, assim num passe de mágica, daquelas coisas que acontecem durante a noite, podiam ter mudado o cenário à minha terra e aquela buzina ser mesmo a do Joaquim e eu estar convencido que estava na Índia.
Não. Não era o Joaquim.

Tinha-me esquecido que na Índia não há padeiros, visto o pão, da forma que o conhecemos e que o Joaquim o vende, não fazer parte dos hábitos alimentares desta gente. Sucedem-se as buzinas tal e qual como na minha aldeia. A que agora vejo passar é a do leiteiro. Uma bicicleta pasteleira, uma campainha, duas vasilhas de grande porte, uma em cada lado, mais as medideiras necessárias, são a ferramenta de trabalho deste profissional. Duas crianças, de olhos mais negros que a noite mais escura, escancaram o sorriso e acenam-me de leiteira na mão, enquanto aguardam a pontual chegada do homem do leite. Recordo agora, quando era criança tive uma igualzinha. Logo atrás um Custódio Feio indiano anuncia ao que presumo o seu produto”, relata o prosador romântico no seu cantare molengão, contagiando o jornalista amigo.
Seguindo as palavras de Napoleão Mira, o seu Custódio Feio não tinha ares de indiano, mas tinha uma motorizada muito parecida e apregoava com o mesmo entusiasmo o seu produto. “Ainda parece que o ouço através da voz deste indiano. Há carapau e pêxe”, “era o seu grito de guerra”, relembra Napoleão, contando: “Certa vez, vendo-o aparecer ao longe na estrada que liga Entradas ao Carregueiro e pretendendo fotografá-lo fiz-lhe sinal de paragem. O homem parou, eu fotografei-o e ele foi-se embora. Mais tarde soube que se tinha amedrontado pensando que ia ser assaltado ao não me ter reconhecido. Já tinha cara de muita coisa, agora de meliante é que não sabia! Se a minha aldeia tivesse barcos, era lá que eu morava. Gosto desta coisa de me poder mover com a casa atrás água adentro. Gosto disto de comer e ver a vida passar mesmo aqui ao meu lado. Gosto de saber que as pessoas que me dão de vaia, o fazem sem ser só por fazer”, Napoleão Mira, hoje está empolgado a escrever, sobretudo, a relembrar o seu Alentejo e os amigos de Entradas e a confrontar os campos e rios indianos com os riachos e ribeiras que alimentam o Alqueva. “E gosto desta Índia de silêncios e calmarias. Gosto sobretudo da cozinha do Beldram que não para de me surpreender. Ontem à noite voltou a presentear-nos com umas variações de galinha, que quase me deixou sem adjectivos. Ah... neste momento escrevo a bordo do Dream Palace e estamos prestes a partir para a última visita antes de rumarmos a outro destino. A Natália já lançou o desafio. Da próxima vez ficamos o tempo todo em Kerala. Eu, encolho os ombros e mentalmente já me vejo por aqui a criar raízes. Penso muito no meu pai.
Penso nele todos os dias, mas aqui na Índia dou comigo a falar com ele. Tenho a certeza que o meu pai se em vez de me ter concebido tivesse nascido de mim, era eu. Enquanto vivo, sempre fomos farinha do mesmo saco. Gostávamos das mesmas coisas, de prevaricar juntos, de sonhar juntos, de ir aos ninhos juntos, de “roubar cavalos” juntos. O meu pai era um homem simples que se orgulhava do meu processo de sofisticação. Orgulhava-se de que lesse. Orgulhava-se de que escrevesse. Orgulhava-se de si por eu ser a sua extensão. E eu orgulhava-me dele por ele se orgulhar de mim. É inútil dizer que tenho saudades dele. Não se tem saudades do que está sempre presente”, fabulosas sabedorias de quem passa pela vida agarrando-a com saberes e gostos, registo em pensamento as palavras de Napoleão Mira acabadas de receber e de as publicar.
"Olhares que surpreendem
o mundo de Napoleão Mira,
qual poeta escritor e, viajante
filosofando d’improviso, homenageando
os seus para o futuro dos seus"
“É neste registo instintivo que quero partilhar com os meus leitores a minha experiência indiana.
Não é diário, nem guia de viajante nem sequer um livro que relate detalhadamente monumentos itinerários etc.. é antes a minha maneira de fotografar com a caneta.
Para tal, quase tudo o que escrevi, será publicado dessa maneira crua, às vezes ingénua, às vezes incrédula pelo que se me é dado presenciar”, poetiza viajando pelas cores das palavras. “Portanto, é só aguardar pela saída destes OLHARES, lá para a Primavera”, recitou Napoleão Mira, prosando e olhando a vida qual poeta das palavras faladas acerca da sua última viagem.

Napoleão por terras da Índia
“Impressões gerais colhidas desta peregrinação «Napoleão por terras da Índia», nomeadamente, sobre o povo, os remediados, ricos e políticos, caso tenham arquivado na memória…” , havíamos pedido para que nas contasse: “O povo indiano é uma verdadeira caixa de surpresas. Conheço muita gente que nunca lá colocou um pé, mas tem uma ideia predeterminada, uma opinião cimentada, um certo orgulho no desconhecimento que ostentam.
A Índia é um país a várias velocidades.
Se por um lado tem uma parte da população a viver em condições infra- humanas, por outro lado tem uma comunidade científica que dá cartas em todo o mundo.
São uma das economias emergentes a nível planetário, mas o rio que circunda o Taj Mahal, uma das sete maravilhas do mundo moderno, não está poluído, está putrefacto!
Podia catalogá-los neste oito ou nestes oitenta, mas julgo que o povo indiano é muito mais do que isso.
É uma sociedade complexa, arcaica, no sentido conservador da palavra, patriarcal e, naturalmente, muito fechada em círculos familiares onde o divórcio não existe, só para dar um exemplo do quão medieval pode ser.
São 28 os estados que formam esta união indiana. No entanto não nos podemos esquecer que eram cerca de 600 reinos antes da ocupação europeia, nomeadamente a inglesa, portuguesa e francesa.
Como é de prever, o norte é diferente do sul, o este diferente do oeste.
É neste pote de diferenças que emerge um dos países mais fascinantes do planeta e onde regressarei sempre que puder”, conta Napoleão para adiantar como se entretêm os indianos no seu dia-a-dia para além do trabalho? Aliás, que profissões têm? Há desemprego? Quais as carências deste povo? “Os indianos devem entreter-se bastante na prática de aumentar a população, pois são cada vez mais e em breve ultrapassarão os chineses neste particular. Já o tinha dito em resposta anterior acerca das leis laborais deste país. Se exceptuarmos os trabalhadores da função pública, aqui não existe essa coisa das 35 horas semanais. Tem gente que ao segundo dia de trabalho já as tem no costado. Os indianos são trabalhadores. Têm de ser, caso contrário está uma fila de compatriotas a querer roubar-lhe o lugar. Vi muita gente a trabalhar por tuta e meia, ou será que era só por uma tuta? Nesse capítulo ainda lhes falta percorrer um longo caminho. Claro que há desemprego. O que não me parece que haja é subsídio de desemprego. Aqui a regra é: ou te fazes à vida, ou a vida faz-se a ti.

As carências deste povo são de toda a ordem, isto se estivermos a falar dos mais pobres entre os pobres.
Nesse capítulo falta tudo. Às vezes lembrava-me da música do Gabriel o Pensador acerca daquele pobre, cujo sonho era morar numa favela. Na Índia devem ser aos milhões os que têm esse sonho, isto se ainda tiverem capacidade para sonhar. Por outro lado, existem riquezas arábicas, sumptuosidades indescritíveis, ostentações abjectas, pornográficas mesmo”, refere Napoleão Mira.
A «peregrinação» foi cansativa, ou estás pronto para outra? Última questão jornalística em jeito de despedida: “Sim foi. Estou a precisar de férias das férias. Claro que estou pronto para outra. Amigo, viajar é levar o olhar a passear e eu, tenho inundado o meu de riquezas que muitas vezes não sei descrever. “O que eu quero é correr mundo, correr perigo”.

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