Dia: 15 de Ago
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A humanidade a transformar-se em pó e as cinzas chagam mais longe em dia de vento

Paulo Leote e Brito, homem do futebol, jornalista/repórter meio aposentado, conversador nato e contador de histórias vividas, quando está bem-disposto e sem sono escreve como só ele sabe e com a mestria de seduzir os leitores. Dito isto, leiam mais duas crónicas à laia de desabafos

Por Paulo Leote e Brito

A humanidade a transformar-se em pó

Viver a vida rodeado de flores e amor, seja lá o que isso for, não é viver. Também não é sobreviver.

É sonhar! É um suporte de vida dourado.

Não sei se existe e se existe o mais parecido que encontro para comparar é a Paris Hilton e sucedâneos.

Nomeio a rapariga, confesso, por preguiça, foi o primeiro nome que me veio à cabeça, exactamente para recusar a ideia de que viver bem é viver de flores e amor, seja lá o que isso for.

Não faço balanços prolongados e muito menos definitivos de vida mas há coisas a que me vou chegando como quem burila um diamante que é isso que a vida é; um diamante em bruto para ser burilado.

Li no meio de muitas leituras um pequeno texto de alguém que não retive o nome, que por sua vez estava a ser citado por outra pessoa e que se referia às leis que a esquerda vai impondo por falta de assunto e que a carneirada que também não tem assunto, se encarrega de tomar como sua qualquer idiotice sugerida.

É óbvio que há coisas que faz sentido falar delas, mas que devem ser discutidas e encaixadas nas prioridades que a sociedade reclama, não prioridades que alguns membros egocêntricos da sociedade reclamam.

Digo egocêntricos, como podia nomear outra patologia, porque é de patologias que falo.

Voltando ao início deste amontoado de palavras, para dizer que a minha vida, como a da maior parte das pessoas, não é um monte de flores nem tão pouco uma barriga cheia de amor, seja lá o que isso for.

Ontem ouvi um desabafo de alguém que passa a vida a ser mensageiro de más novas; "tenho um familiar em coma há 12 anos, já gastei, eu e meus irmãos e irmãs, para cima de 200 mil euros", sem mais detalhes, concluímos que a invocação do lado material é uma forma de dar força ao lado racional que é o de desligar a máquina, o familiar com 92 anos já terminou há 12 o seu ciclo de vida.

Há quatro dias, estacionado na sala de espera de um hospital escutei uma conversa "...foi despejada e com a roupa que tinha no corpo..." interrompi a leitura que fazia, sem mexer uma pestana, e estava a remoer o que acabara de ouvir, que é já um quadro costumeiro nos dias que correm, quando outra frase me paralisou ainda mais "...por isso é que não veio hoje ao hospital fazer as análises ao bebé...". Percebi que um mensageiro de más novas tinha acabado de expulsar uma jovem, com a roupa que tinha no corpo e um bebé nos braços.

Por outro lado, há uns anos atrás conheci uma jovem que mesmo avisada e "reavisada" teimou num comportamento que a condenou a uma vida errática que descambou em drogas, prostituição, filhos de vários parceiros a crescer em instituições e não, não se pense que era filha de gente modesta e de pouca instrução que é como quem diz, gente que passa o dia a comer batata frita de pacote e cuja conversa tem somente capacidade para resumir uma telenovela ou duas e um big brother ou casa dos segredos, seja lá que trampa estejam a agora a passar na televisão.

Se esta crónica fosse um romance, o mensageiro de más novas seria o mesmo da familiar em coma que expulsou de casa a miúda dos (re)avisada com um bebé ao colo e não faço ideia se o romance acabaria num drama ou se teria um final feliz.

O que sei é que a vida me tem trazido tantos dissabores como momentos de alegria. Muitos dos momentos de alegria resultaram da forma como enfrentei e resolvi os dissabores que acho que assim é que deve ser.

Tendo a afastar-me dos eufóricos para não os contaminar com a minha força da gravidade que me empurra os pés para solo seguro, mas sou intolerante para com as vitimas como forma de ser e estar, porque essa é uma contaminação que se propaga pela mente e corpo até definhar todo e qualquer relacionamento.

Esquartejava eu a esquerda, como de costume, uns parágrafos lá mais atrás quando a mão resolveu por si desviar-me do caminho.

Peço desculpa, não por isto da mão, mas à esquerda, por vezes deixo-me guiar pelas emoções e elas são fruto da minha experiência de vida.

É sempre a esquerda, irrequieta, imatura, adolescente, rebelde, e todos sabemos que os adolescentes rebeldes podem estar a maturar uma doença mental, mas dizia, porque é que é sempre a esquerda a lutar por direitos que parecem ser do senso comum e exercidos pelas pessoas de direita, também apetece dizer, seja lá o que isso for, porque, muitas vezes, educação e formação cheiram a conservadorismo. Mas escrevia eu, as minhas emoções são fruto da minha experiência de vida, e a forma como reajo perante a sociedade é um reflexo disso mesmo.

Tudo isto para regressar ao tema que li, cujo autor não me lembro, que interpelava a inteligência de quem o lê colocando algumas questões, já não sei se era ele que as colocava, ou se foi a minha interpretação que o fez, apontando o exemplo de que se uma pessoa abandonar um idoso, incontinente, incapaz entre outras surpresas que a vida nos oferece, à porta do hospital, se o fizer nada de criminoso lhes é apontado. Mas se fizer o mesmo a um cão...

Não escrevo mais nada que este espaço é curto e desaconselhável para textos longos.

Também não tenho nada para dizer, isto sou eu a pensar e a mão, sempre a mão, toma conta do pensamento e os dois cozinham estas coisas cheias de letras. Eu leio e ao ler produzo mais pensamento e o pensamento pega na mão e lá vão eles... Até que há um momento que digo; Basta.

Então, o pensamento e as mãos vão fazer outra coisa qualquer.

Escrito por Paulo Leote e Brito em 10.02.2012

 

As cinzas chagam mais longe em dia de vento

Ontem cheguei tarde a casa.

Sem saber onde deixei o sono, que é coisa rara.

Não sei se deva preocupar-me, por não saber onde coloquei o sono.

Ainda não tenho idade para me esquecer assim das coisas, às vezes não sei onde estão os óculos que uso para ler o Correio da Manhã ou as chaves de casa, mas isso é mais porque a minha mulher tem a mania de limpar a credência e acha que as chaves ficam melhor no chaveiro.

Eu não, dá-me mais jeito assim, abro a porta e ponho logo as chaves em cima da credência.

A minha mulher diz que risca o mármore, que é uma credência com um tampo de mármore importado, veio das colónias, a minha mulher é retornada que era assim que se chamavam os portugueses que tinha ido lá para a terra dos pretos para os explorar e depois quando a devolveram aos donos legítimos tiverem de retornar.

Não sei bem se é retornar, a minha mulher é de Casal de Cambra e eles retornaram para Loures que era terra que nunca antes tinham visto.
Falava das chaves, não era?!

Pois, ela embirra com as chaves em cima da credência de mármore importado que os pais trouxeram de África, porque pode riscar, e leva aquilo muito a peito, mesmo que eu ponha sempre as chaves em cima no naperon que a mãe dela, ou a avó, não me lembro ao certo qual, bordou que como era do enxoval não ficava bem não o usar e sempre protege o mármore importado do pó.

Protege do pó e não protege das chaves, diz ela, por causa dos buracos do naperon. Já lhe disse que o mármore gasta-se mais com as polidelas que ela lhe dá, pelo menos uma vez por dia, do que o pó as chaves e a correspondência, que é ela sempre que recebe o correio mas diz que o papel não risca.
Já não me lembro do que queria dizer.

Ando assim, mais esquecido, mas todos dizem para não me preocupar, pode ter sido por causa de me ter reformado recentemente.

Não que eu quisesse, mas a empresa mudou de dono, e uns meses depois o novo proprietário disse que para não ter que fechar o negócio tinha que despedir o pessoal mais velho e eu que entrei como aprendiz aos 12 anos, era dos mais velhos, só o Carlos dos Anzóis é que estava lá há mais tempo.

Fui dos primeiros a ser dispensado. “Você já trabalhou muito, aproveita para desfrutar, ainda é novo pode ir fazer as coisas que gosta, fica com mais tempo para a família”, eu ainda pensei dizer-lhe que agora já não precisava de tempo para a família que os filhos já estavam na vida deles e só apareciam aos domingos e nos dias de aniversário, mas nunca fui de conflitos e calei-me. Aceitei a decisão e cá estou. Ainda urino bem, sem ser às pinguinhas, como o coitado do Rodolfo, vou sempre à mesma hora à casa de banho, sinto-me bem, os filhos estão na vida deles, vêm sempre comer o cozido aos domingos mas não trazem netos porque ainda não têm filhos. Às vezes sou assim, digo umas coisas com graça, lá nas oficinas riam-se muito das coisas que eu contava, diziam sempre o “Florival é fino e atento”.
Posso dizer que sou feliz, a casinha está paga, faltavam ainda umas prestações, mas com a indemnização pagamos logo tudo. Deu também para comprar uma máquina costura nova que a minha mulher faz uns arranjos em roupas, uma televisão, destas novas muito magrinhas e fomos a três excursões; a Fátima, a Sevilha e ao Algarve.

A Fátima fomos também ver as grutas de Serra D’Aire.

Planeamos fazer mais excursões, mas a minha mulher tem sempre umas costuras para fazer, felizmente trabalho não lhe falta e sempre dá para acomodar as poupanças.

Já me disse que se eu quisesse podia ir que ela ficava bem. Mas não acho bem deixá-la sozinha e eu também não gosto muito de andar aí a passear sem ela.
Ontem fui a um jantar com os amigos da sueca, fazemos sempre todos os anos um jantar, voltei tarde, deixei as chaves em cima do naperon que cobre o mármore importado da credência e fui até à sala, agarrei no comando da televisão magrinha e andei a pular canais sem saber o que fiz ao sono que desapareceu por completo. Depois fiquei um bocadinho a pensar no que tinha comido e bebido para ver se descobria o mistério do sono desaparecido, foi quando percebi o que tinha acontecido ao sono; o malandro, fugiu com o café que tomei.

Está o mistério resolvido, agora é esperar que o café se aborreça com o sono e o mande de volta para mim.

Às vezes digo coisas com graça, já na oficina o pessoal ria-se destas coisas.

Acho que tenho algum jeito para dizer graças.

Escrito por Paulo Leote e Brito em 11.02.2012

Modificado emsexta, 16 fevereiro 2018 16:28
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