Dia: 20 de Ago

“Raios partam” os ciclos que a vida encerra

(…) “Era doido pelo seu Belenenses. Na sua casa de férias de Albufeira hasteava a bandeira do Belenenses lá no alto, quando a via sabia que tinha chegado para as férias (…)

Por Paulo Leote e Brito

Eu sei! Se sei. De cada vez que penso mais intensamente que sei, levo uma bofetada. Há quinze dias levei uma, agora levo outra. Às vezes penso que seria melhor morrer cedo e levar comigo as pessoas todas de que gosto ainda vivas. Mas isso seria comodismo. Assim levo-as comigo até ao meu último suspiro que é uma forma de as eternizar queira o tempo que me falta ser ainda muito.

"São os ciclos de vida" dizia-me certeiramente o filho Miguel, pessoa de quem eu gosto muito, sem se perceber na conversa quem é que consolava quem. Uma heresia clara, ele perde o pai e um amigo, ele perde tanto e eu perco somente um amigo. 
Brincamos a respeito de uma garrafa de medronho que aqui tenho com o seu nome inscrito para que ninguém lhe tocasse, e a promessa de lha dar no próximo reencontro não se vai poder cumprir. "E agora, Miguel como é que lha entrego?!", o filho, pessoa muito doce, respondeu-me; "Bebe-a com amigos e não te esqueças de o recordar de cada vez que o fizeres".
O humor, não é bem humor, é mais inteligência e sensibilidade, sempre presentes na nossa relação. A última vez foi um encontro casual que se transformou num acontecimento, despedi-me beijando-lhe a face. É tão bonito os homens conseguirem expressar afectos.

Era outubro, aqui onde por estes dias habito, fazia frio, a rotina diária de passar para ver o mar, reparo numa pessoa de costas, despertou-me a atenção a indumentária, um casaco de fato treino do Belenenses, pensei logo nele mas longe de o ver ali, sem vergonha abri a janela do carro e gritei-lhe o nome sem esperança que fosse mesmo ele, mas era. Confessou-me que estava em "retiro espiritual" um eufemismo ao seu jeito. Já estava de abalada, mas nessa noite o telefone tocou "Fico mais um dia, vamos jantar?". E fomos. Ficamos numa esplanada enregelados; o vício dos cigarros. Comemos um peixe, bebemos vinho e claro o whisky com duas pedras de gelo, vários. Pelo meio cigarros e muita conversa, o calor humano superou o frio que fazia. Contava histórias, refilava com os amigos velhinhos certinhos na toma dos comprimidos e nos horários dos almoços, logo ele que se deitava tarde e se levantava tarde e que tomava os comprimidos se se lembrasse. Tinha espírito de jovem. Calhou falar de medronho, disse-me que gostava muito e ficou a promessa de lhe arranjar um caseiro, da serra do Algarve. Quis pedir-lhe o casaco do Belenenses, mas estava frio, não tive coragem. Mesmo que não estivesse frio não teria coragem. Despedi-me dele beijando-o na face, sim, estou a repetir-me, peço desculpa mas não me levem a mal.

Falei dele há dois dias e a vontade de lhe ligar tornou-se imperativa, era para o desafiar de novo para o almoço adiado. Cheguei ontem de viagem, hoje de manhã oiço: "Isto não é bom", fico a saber da nova. Fico calado. Percorro as memórias, recorro às trocas de mensagens ainda guardadas e numa delas escrevi-lhe "gosto muito de si" e ele respondeu; "nisso estamos empatados". É isto que é importante: verbalizar certezas. Uma das coisas que aprendi é dizer às pessoas de quem gosto que gosto delas, em alto e bom som. Ficamos com estas certezas ao jeito de consolo.
Estes obituários são um exercício individual que não deveria sair da intimidade, deveriam ser discretos, mas nunca sei o que fazer com as emoções; escrevo, ajuda-me muito. Costumo dizer que não há palavras nestes momentos, palavras daquelas que sirvam para atenuar a dor, sobretudo dos mais próximos. Sei o meu lugar na hierarquia dos que podem reclamar a dor perante algumas perdas. Mas este egoísmo expresso por palavras nesta espécie de crónica é a forma que me ocorre para suavizar a ausência.

É também costume contar histórias, mas com o "tio" Jorge, que esteve transversalmente na minha adolescência, as histórias são tantas. Primeiro o direito a chamar-lhe "tio", andei a penar com "senhor engenheiro" até ter autorização. O futebol uniu as nossas vidas, chamava-me "internacional" e a sua irreverência colou-se à minha, proibido que estava pelos clubes por onde passei de disputar peladinhas em férias para não correr o risco de me lesionar. Mas depois lá vinha o tio com as balizas e voz de comando, não admitia o "não". Detestava perder e o melhor elogio que me fazia era o de me escolher sempre para a equipa dele e zangava-se à séria quando falhava um passe ou um golo de caras ou quando não defendia e ficava à "mama". Depois quando eu (raramente) teimava em ficar na outra equipa, ele que jogava sempre a defesa central, dava-me pancada, a bola anda podia passar, o traidor do miúdo é que nem pensar, aproveitando não haver vídeo arbitro e obrigava-me assim a escolher entre as zangas dos golos e passes falhados e a marcação dura que me fazia quando lhe caia na sua esfera de acção. Escolhia quase sempre ficar na sua equipa. Não era por medo da pancada, era porque ao lado dele sentia-me em casa. Era o mister, era o capitão, era jogador e também árbitro, tudo ao mesmo tempo, era a voz que toda a gente respeitava, que nesse tempo respeitavam-se os mais velhos incondicionalmente, e os jogos acabavam quando a torre do relógio marcava as nove da noite. Depois o banho no mar acompanhado das discussões sobre as nossas prestações. Tão bom que era, tudo, era tudo tão bom.

Era doido pelo seu Belenenses. Na sua casa de férias de Albufeira hasteava a bandeira do Belenenses lá no alto, quando a via sabia que tinha chegado para as férias. Tive uma curta passagem pelo seu clube, a minha última tentativa no futebol profissional. Correu mal, e ao fim de seis meses fui cedido e, acreditem que aquilo que mais pensei na altura era poder oferecer-lhe a camisola do primeiro jogo, primeiro jogo que nunca chegou a acontecer.
Um ano houve que fui de férias a recuperar de uma lesão com direito a operação e tudo, as ordens do departamento médico eram claras e incluíam as de não correr e muito menos tocar numa bola. Claro que não obedeci mas foi a única vez que o tio Jorge me protegeu, não me deixando cair em exageros e um mês antes do que seria previsto já andava a falhar golos e passes sem ouvir uma reprimenda a não ser a de não exagerar.

Há uns quinze anos mais coisa menos coisa, a convocatória, vinte anos depois uma ultima futebolada, os miúdos todos velhos e o tio Jorge a não se esquecer de nada, rezingão, a corrigir a táctica, depois um jantar e tudo tão bom.
Depois o reencontro facebookiano, sei que o surpreendi com algumas coisas que por aqui partilho na forma escrita, nunca sabemos para onde se vão enfiar os adolescentes com as suas patetices e ele, homem culto, homem de bom gosto intelectual, talvez não esperasse que o "internacional" viesse a despertar para este lado mais sensível às artes. Isso aproximou-nos enquanto adultos e naquela noite a conversa sempre vadia, como se querem as boas e fraternas conversas, foi alimentada pela partilha de gostos comuns. De vez em quando lá vinha a saudade e um e outro lançávamos o desafio, já não das peladinhas na praia, mas o do reencontro. Fomos adiando. E a garrafa de medronho caseiro, daquele que não faz mal, aqui em casa, com o seu nome escrito. A sua saúde aconselhava a não lhe tocar, hesitei, confesso, em lha dar mas disse-lhe que a tinha a pensar se quando nos encontrássemos não fingiria um esquecimento O medronho cá de casa a acabar e eu a dizer; "Nessa garrafa não se toca, é do tio Jorge". E cá está ainda, à espera. E agora, que faço com ela? Vou bebê-la devagarinho, na companhia de pessoas que a merecem e recordar o tio Jorge de cada vez que lhe tocar. Tem de ser devagar para durar muito tempo. E mesmo que acabe, não acaba a recordação.

Gosto muito de si, tio Jorge. E queira a memória não me pregar partidas, será sempre recordado com um sorriso, um sorriso na alma. Ao meu tão querido amigo Miguel e à sua irmã Filipa a certeza de o Pai deixou espalhados pela vida bocados seus que serão guardados com doçura e sorrisos na alma.

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