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“Eu, pai desnaturado, me confesso” Destaque

Faz hoje oito dias e, por que era o “Dia do Pai”, escrevi e publiquei um humilde texto na qualidade de pai desnaturado auto confesso; ao relê-lo passados oito dias, à hora do almoço solitário, e confrontado com os comentários dos leitores/amigos no meu perfil do Facebook, aventurei-me a republicá-lo com alguns ajustes, agora, neste espaço com cobiças jornalísticas:

João Pina

Carteira Profissional de Jornalista Nº 4 408

O meu “Dia do Pai”

Bem cedinho batem à porta da memória, que ainda tenho bem viva e avivam:
- Hoje, é o teu dia – o Dia do Pai.
Abro a janela qual fresta de entrada de ar puro e de largada de fantasmas malinos e, respiro fundo; olhos abertos, olho-me por dentro e afoito balbucio – que raio de pai sou – objecto-me melhor ou pior julgando - terei sido bom filho?

Tópico custoso de aclarar abertamente.

Como filho, digo, que fui um gajo porreiro, baldas e que fiquei com uma grande dívida para com o pai – o meu – débito de mais amor e de maior entrega para com ele – o meu pai – enquanto, vivo nos últimos anos.
Nunca lhe disse o quão dele gostava; quanto o admirava e que sem me aperceber o copiava como ser humano; o «seu feitio chapado» - aliás, ser baldas é hereditário – obrigado, meu pai, é tarde, mas amo-te deveras postumamente – e, no passar das horas tardias sem fim, as tuas lembranças arrimam-se cada vez mais, também, quiçá, lembretes de que em breve nos encontraremos na «Tasca 1º de Janeiro» do Fundão, da «Grande Quinta dos Céus», para brindarmos com um bom vinho da região da Gardunha.

Oxalá!
A gente se veja no Além Celestial de que nunca fomos de acreditar...

Como pai, esperançarei que um dia passados muitos anos, os filhos pensem: 
- Até foi um gajo porreiro; deu-nos tudo quase nada, talvez, “mais do que nós filhos lhes demos” – mas, como pai, adoro-os e partirei com o dever cumprido.

No meio do nada, meu querido pai – festejo imensamente o viver rememorando palavras tuas – “para mim tenho, agora é, a tua vez de viveres por ti” – e, assim, tem acontecido, amando-te por me teres dado ensejo de ser quem sou…

Foram tantos gestos de ensinamentos de ser homem que recebi; deixa-me relembrar alguns marcados até hoje:

- Tinhas-me comprado umas botas feitas à mão pelo Xico Sapateiro, de Medelim, daquelas botas que se hoje as tivesse tinham 60 anos; foram feitas à mão, cozidas e tudo com as peles e solas artesanais
.
Penso, que nessa altura dos meus 11 anos, devia calçar o número 35/36, eram as botas domingueiras e que depois levaria quando fosse estudar para a «cidade». E, que dariam para três ou quatro anos, já que cabiam pé e meio em cada uma – o meu pai pensava em tudo – só que, miúdo irrequieto e único dono de uma bola de couro da aldeia, passava os dias nas férias a jogar futebol – até aqui nada de anormal, porém, uma tarde choveu e armado em valente e coquete para exibir as botas, o jogo continuou até estarmos bem aguados.

De regresso a casa, ao crepúsculo, descalcei as botas e pu-las junto à braseira para secar.
À hora do jantar começou a sentir-se um cheiro a chamusco e a minha mãe exclamou – “ai as botas novas do garoto!” – o meu pai, cabisbaixo, resmungou, levantou-se – “as botas eram para os domingos ires à missa e depois para quando fores estudar” – pegou nelas e pô-las à entrada de casa junto à porta – deixei de as ver a partir do dia seguinte.

Nos últimos dias de Setembro, antes de ir para Castelo Branco, o meu pai ao chegar a casa para jantar e quando estávamos juntos na cozinha, pegou nas ditas botas, então mais pesadas e nova apresentação e deu-mas – “aí tens para passares a calçar todos os dias, incluindo, ires estudar, ires à missa e jogar futebol; levas um bocado de sebo para depois as limpar, as ensebar para durarem mais e ficarem bonitas – ah! as solas são de pneus dos tractores velhos, mas são contra a chuva e contra tudo”.

Remédio santo!
Tive botas para três anos (a minha mãe no ano seguinte ofereceu-me umas sandálias feitas pelo Ti Xico para as férias grandes).

Moral da história – saber dar valor às coisas que recebemos ou conquistamos.

Outro ensinamento do meu pai:

Em Castelo Branco, para que não julgassem que era um betinho, comecei a jogar bilhar e snooker no “Café Arcádia”, no “Clube de Castelo Branco” e, igualmente, a fumar cigarros “3 Vintes”, “Impala”, Avis” e outros feito gente de bigode e patilhas à “Teddy Boy”.
Por esses tempos, o meu pai dava-me de mesada 600 escudos; para pagar a pensão completa numa espécie de “República”, no Largo do Saibreiro, na casa do senhor Camilo, em frente ao “Martins Évora”, no rés-do-chão uma Casa de Pasto/Taberna, onde fazíamos as refeições e nos três andares superiores, os quartos, salas, casas-de-banho, custando tudo 400 escudos mensais.
Da mesada, sobravam 200 escudos destinados a material escolar comprado na “Papelaria Narciso”, comer umas sandes e pagar algumas coisas na Escola Comercial.
Todavia, inflacionava a contabilidade académica e passei a comprar tabaco em vez de esferográficas, sebentas, material de desenho e outras despesas.
O meu pai, Comandante do Posto da GNR de Medelim, de parvo não tinha nada, aguentou-se, até por que tinha boas notas e mal chegaram as férias grandes deu-me a resposta:

Em Medelim, Monsanto, Proença-a-Velha, freguesias onde o seu poder militar surtia efeito, avisou os comerciantes donos de lojas, tabernas e afins: - “se venderem tabaco ao meu garoto ou a outrem que venha com ele, faço-vos a vida negra em termos de fiscalização – acabou-se a mama” – e, em casa – proibiu a minha mãe de dar-me 25 tostões no final da missa aos domingos – alegando que eram as ordens do pai.

Nos primeiros dias de castigo, os miúdos mais crescidos deixaram de dar-me cigarros – epá, cigarros semidão não há – e, foi desta forma que deixei de fumar durante as férias de verão.

Em Outubro, quando o meu pai se despediu de mim em Castelo Branco, para iniciar o primeiro período escolar e ter-me dado os 600 escudos para o mês, avisou cordialmente – “olha, meu rapaz, agora estás por tua conta e eu como GNR não tenho poder para impedir que te vendam tabaco” –“ assim, vê o que fazes, gasta o dinheiro em livros, em roupas, o que entenderes; o tabaco faz mal à saúde e à carteira” - e, disse o rosário de males dos cigarros.
Mal a camioneta do “Martins Évora” abalou com ele a acenar-me com a mão fora da janela, pedi a outro estudante que também vivia na Casa do senhor Camilo para me comprar um maço de tabaco.

Passados cinco minutos, puxei de um cigarro, dei duas ou três passas às escondidas, expeli o fumo e aquilo não sabia a nada – “pega” e dei o maço de tabaco ao colega de pensão – até hoje, nunca mais comprei tabaco e durante décadas, talvez tenha aceitado meia dúzia de cigarros para não fazer papel de parvo e de Zé Certinho, mas acabava por não fumar.

Aprendi não fazer o que os outros fazem só para dar nas vistas e que faz mal à saúde e à carteira.
Obrigado, meu pai!

Presença e conversas com o meu pai fez e que mudaram a minha vida:
Estava eu, já em Lisboa depois de 44 meses de exército em tempo de guerra colonial, mas com uma «santa e boa tropa miliciana», a trabalhar nos tribunais cíveis da Comarca de Lisboa e diariamente tinha de correr a cidade em busca de informações junto dos outros tribunais, repartições de finanças, conservatórias várias, Tribunal da Relação e do Supremo – trabalho forense e de solicitador – e, tudo à mistura com as noitadas, pelo que fui parar ao Hospital de São José, onde estive internado 44 dias e vi morrer ao meu lado 44 doentes – tive de tomar juízo com as visitas do meu pai e depois convalescença em casa da Tia Isabel, no Bairro da Encadernação.
O meu pai já reformado, vivia sozinho na Zebreira, Idanha-a-Nova e ao fim de dois meses de convalescença deu instruções ao primo Júlio para que me orientasse uma Escola de Condução para tirar a respectiva carta.

Ao fim de um mês, tinha feito exame e no mesmo dia, o meu pai que fez uma temporada em Lisboa para me acompanhar, levou-me ao Stand da Morris, C. Santos, e ofereceu-me o primeiro carro - um Morris Mini Club Man de 1973 que custou 69 contos.

E, com este carro, a minha vida mudou completamente, quer a nível profissional como social.
O meu pai era assim: 
Era de poucas palavras, mas ainda me lembro bem de algumas, mais que sermões.
Foram palavras ensinamentos de vida, que me fizeram homem cedo, livre, independente, funcionário público no dia em que me emancipou aos 18 anos.

Ainda sou do tempo em que se tratavam os pais por "você" e levávamos umas lambadas. 
Só me deu duas ou três, devia de ter dado mais, merecia.

Não quis estudar mais, levou-me ao Tribunal do Fundão para estagiar e aí me tornei homem e depois já em Lisboa por minha conta voltei a estudar.

O meu pai foi um militar de excelência, no entanto, apanhou 20 dias de detenção por ter dado umas "bocas" contra Salazar, depois, já reformado, foi candidato à Câmara de Idanha-a-Nova pelo PCP nas primeiras eleições livres a seguir ao 25 de Abril.
O meu pai foi um democrata e um seguidor de Cunhal.
Não foi comunista praticante de vida, mas cunhalista militante. 
Cunhal era um defensor do povo, democrata, assim como Jerónimo não é um comunista como a história conta.

Meu pai que foste e, serás sempre, o meu abraço.
O meu saudoso pai já que, hoje, pais e filhos têm liberdade e democracia expressa para o esquecimento de quem lhes deu a vida e se repetem na ofensa familiar com a falta de amor sanguíneo, pelo que hoje o "Dia do Pai" é uma farsa e mais um dia de consumo mercantilista dos novos tempos do capitalismo.

João Pina
19.03.2017, pelas 15,40 horas, quando até ao momento não recebi qualquer tipo de manifestação de carinho, amor e saudade, restando-me, assim, a lembrança do meu pai que nunca faltou na hora certa.

PS: Nessa noite, 19 de março, “Dia do Pai” recebi por telefone e também por mensagens, declarações de amor do “bom pai” e delas (as três filhas) ausentes, de que gostam de mim mais beijinhos, beijinhos…

Publico uma foto com a Sónia e Sara, as filhas mais novas e presentes e, da Patrícia a viver em Itália desde dos dois ou três anos, mas que visita regularmente..

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