“Câmara, fui eu presidente daquela casa, não, não fui (...)" Destaque
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Fui eu presidente daquela casa, não, não fui. Se me interrogassem hoje, como a um criminoso, diria que não, veementemente.
Joaquim Vairinhos
Aquela casa é como um castelo inglês, virado a norte e cheio de fantasmas, com bolores nas paredes e líquidos de alquimia nos alicerces.
Sim, e não é de dia que ela trama, é de noite!
Quantas vezes ela me sussurrou em sons cavos das entranhas, erraste.
Nem pensam o que eu ouvia naqueles dias de névoas cinzentas quando intrigas ficam pesadas, insuportáveis.
E como ela se ria, da minha ingenuidade de acreditar que tudo era verdade na transparência dos preliminares.
E eu, infantil, acreditava que todos me diziam o que pensavam.
Altaneiro entrava pela porta principal sem recorrer aos becos na certeza de marcar presença.
Oh, meu Deus que criança fui não percebendo que era dos becos que lhe provinham os maus alimentos.
Mas que podia eu fazer, se a vaidade me atraia pela sua fachada.
Era como vogar numa nuvem de algodão rosa doce quando lá entrava.
E quando ela dos meus me escorraçava, com sorrisos brancos, puros, a desconfiança não me tocava.
Não, não fui presidente daquela casa.
Aquela casa branca virada a norte é por si governada. Se alguém que entra pela porta grande pensa que a tem, está enganado.
Sorte terá se não sair de lá, por ela, vilipendiado.
Joaquim Vairinhos, 10 de Maio de 2018.
