Dia: 16 de Jul

- Tipo Marco van Basten –


(…) “E foi com areia entre os dedos que vi a infância virar adolescência. As prioridades dos meus colegas mudaram... Eles queriam "sair à noite" e eu queria que aquele jogo nunca acabasse, como se fosse possível fazê-lo durar para lá do tempo que conhecemos”

- Tipo Marco van Basten -

Quando o pé me doeu naquela noite, tentei, como sempre, continuar em campo.
Não havia nada em jogo que o justificasse, somente a vontade de ganhar fazendo o meu melhor, como sempre. Porque mais do que jogar por algo, joguei sempre por mim. E foi com esta mentalidade que continuei a ir, noite após noite, jogar naquele pavilhão.

Mas esta história começou antes de sequer haver pavilhão, "quando a idade cabia nos dedos", fosse no alcatrão de uma qualquer rua ou no campo de terra da Escola Primária em Alcantarilha. Depois veio o alcatrão da "escola dos grandes", já em Armação de Pêra. Em todos os intervalos e ao fim-de-semana, lá estava eu, sempre a jogar com os mais velhos. Sem medo e com muita vontade de ganhar porque o meu orgulho continuava em jogo, a cada jogo, todos os jogos.
Nem o secundário mudou esta paixão e a cada intervalo lá continuava eu, no campo de alcatrão da Escola Secundária de Silves.
Pelo meio deste percurso, alguns foram crescendo e abandonando o campo; uns porque preferiam usar os intervalos para queimar cigarros, outros porque passaram a ter outras prioridades (é difícil arranjar namorada a suar atrás de uma bola em todos os intervalos).
Mas eu fui ficando.

Quando fui estudar para Lisboa, aproveitava os fins-de-semana para ir até ao pavilhão.
Quando regressei ao Algarve e comecei a trabalhar, continuei a ir.
Daquela primeira geração que começou a jogar antes do pavilhão, já só restava eu.
Mesmo com vinte e tal, era o mais novo e, ao mesmo tempo, o jogador mais antigo em campo. Este estatuto permitiu-me atravessar várias gerações de alunos e de professores com quem partilhei o campo. Os campos.
Mas a idade um dia deixa de caber nos dedos e os jogadores pelos quais eu não conseguia passar, deixaram de me conseguir acompanhar. E por ter jogado sempre contra os maiores e mais fortes, fui obrigado a desenvolver uma "mudança" extra.
Uma velocidade que poucos tinham.

Foi com recurso a essa velocidade que ainda marquei alguns golos pelo Clube de Futebol "Os Armacenenses", mas cedo percebi que o futebol era uma paixão, mas não uma prioridade e enveredei por outros caminhos feitos de informática e música.
Mas nas noites de Verão largava o computador e lá estava eu, no campo de futebol de praia em Armação de Pêra. Mesmo depois das luzes se apagarem.
E foi com areia entre os dedos que vi a infância virar adolescência. As prioridades dos meus colegas mudaram... Eles queriam "sair à noite" e eu queria que aquele jogo nunca acabasse, como se fosse possível fazê-lo durar para lá do tempo que conhecemos. Mas continuei a ir, até ao dia em que deixou de haver esse campo.

Entre todas as ocupações e responsabilidades de adulto que foram surgindo, aquelas horas de futsal no pavilhão continuaram religiosamente reservadas. Porque mesmo tantos anos depois, o meu orgulho continuávamos em jogo e só queria fazer o meu melhor e ganhar.
O tempo não mudou isso em mim. Fiquei. Persisti. Insisti.
Continuei a calçar as chuteiras com dois pares de meias nos pés.
Nos dias mais frios, nos dias mais quentes, com mais ou menos dores, joguei.
Até àquela noite.

Naquela noite não consegui continuar porque a dor era bem maior do que a minha vontade e a cada passo forçado naquele campo sentia o meu mundo a desabar.
Dessa vez não consegui continuar e tive de parar.
Mas mais do que a dor que sentia naquele momento, pairava-me na cabeça o medo de estar a sair do meu último jogo porque nunca tinha sentido uma dor assim, tantas lesões depois.

Depois disso andei entre hospitais, médicos e exames, mas parecia que nunca me levavam a sério... "É jogador profissional?". Não, mas aquelas horas em campo faziam parte da minha felicidade. Era o tempo em que não pensava em mais nada e era livre, dentro das linhas daquele campo cor-de-laranja.
Como não descobriam o que havia de errado no meu pé e eu queria continuar a jogar, tentei voltar, mas mesmo meses depois aquela dor continuava lá e eu não conseguia sequer correr. Por muito grande que fosse - e é - o meu orgulho, percebi que estava perante um jogo que não poderia ganhar.

Após muita insistência, descobri que tinha uma lesão grave no astrágalo (um osso que nem sabia que tinha no tornozelo).
Com a causa da minha dor descoberta, enviaram-me para Lisboa e foi na primeira consulta com um médico especialista que percebi que não havia nenhuma solução mágica para a minha lesão. Que mesmo sendo operado, seria muito pouco provável poder voltar a correr ou a jogar futsal sem medo de agravar uma lesão que felizmente não me incomoda no meu dia-a-dia de "pessoa normal".
Não fosse o facto de eu não querer ser uma pessoa normal, tudo estaria perfeito.
Mas não desisti. Troquei o futsal e a corrida pela bicicleta e pela natação, e foi por isso que durante o Verão, ao final da tarde, havia uma bicicleta "estacionada" na ponta do passadiço de madeira, na praia de Armação de Pêra.

Fiz tudo o que podia para poupar o meu tornozelo, sem desistir de me mexer, na esperança de recuperar e um dia poder voltar a jogar.
E hoje essa esperança morreu.

Sempre pensei que um dia seria aquele velhote lá no pavilhão, a jogar mais devagar, mas com a mesma vontade de sempre. Pensava que um dia poderia voltar a formar dupla com o Bruno Alves na frente de ataque dos Veteranos dos "Armas", mas esse dia não vai chegar porque acabou para mim.
Porque neste momento arriscar o próximo jogo pode custar o resto da vida.

Enquanto o meu médico hoje me recomendava optar por outra modalidade, lembrou-se do Marco van Basten, que foi obrigado a terminar a sua carreira demasiado cedo devido a uma lesão parecida. Eu era muito novo, mas lembrava-me perfeitamente do "van Basten", só não sabia que tinha sido uma lesão a afastá-lo do topo do futebol mundial, com apenas 28 anos.
A minha pegada no futebol é completamente insignificante em comparação, mas infelizmente temos em comum a idade e a lesão.
E infelizmente, temos em comum a tristeza de ter de dizer "basta".
(Que mesmo doendo dói menos do que a dor que senti naquele último jogo.)

Obrigado a todos os que se cruzaram comigo em campo.
Espero que tenha sido um prazer jogar ao meu lado.
E espero que tenha sido difícil jogar contra mim.

"Quando a idade cabia nos dedos, a palma tinha sangue pisado
O campo era de terra, mas eu via-o esverdeado
Quatro passos de perna aberta e a pedra que tivesse a jeito
O outro poste era de basquete e a trave era um conceito
Sem rede ou marcação, a bola nunca estava fora
E o jogo só terminava depois do sol ir embora
O apito para o intervalo era o toque de entrada
Caderno preto de capa gasta com a matéria passada
Com a bola debaixo do braço a mochila já não pesava
Bola no pé depois da porta e a hora não interessava
Paixão era redonda, dava provas num quadrado
Mais golos e melhores notas, era aluno aplicado
Expectativa aumentava e o meu futuro já brilhava
Num relato de amanhã o pensamento viajava
Sem preocupações, comandado pela vontade
Vi promessas na calçada com sabor a saudade"

Pedro Pinto

Reflect - Mar e Maré https://www.facebook.com/pmdspinto/videos/10218417191201665/

Modificado emquinta, 07 fevereiro 2019 21:16
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