Dia: 22 de Mai

CRÓNICA: QUANDO TORNAR A VIDA DIFÍCIL PODE SER UM ACTO DE AMOR

“Obrigado pelo trabalho que tiveste em me teres tornado a minha vida difícil”
A frase dita depois de um abraço trocado, num reencontro inesperado, num sítio onde as pessoas nem por acaso se devem encontrar, foi dita com gratidão, com um brilho sincero no olhar, contrastando o rosto macilento e colorido pelo veneno que lhe corre pelo corpo.
Pedi-lhe desculpa, mais por cordialidade do que pelo aceitar a sua frase. Depois insistiu e percebi que falava a sério “não sei se me amavas na altura nem quero agora saber, sei é que nem antes, nem depois ninguém se deu ao trabalho de me dar a atenção e a dedicação, gosto de dizer o amor, mesmo que desajeitadamente me deste, e sobretudo pela generosidade com que o fizeste.”

Eu que nos últimos tempos me tenho sentido um balão velho e inútil, eu que nos últimos tempos me tenho sentido desprezado, abandonado, um balão enrugado de tão vazio a vida me tem feito sentir nestes últimos meses. Esta frase foi como que uma lufada de ar me tivesse devolvido o vigor e a elasticidade que tanta falta me tem feito para me sentir vivo e útil e sobretudo, amado.
Falamos durante um par de horas, contou-me a sua história, falou-me da doença, da inutilidade dos tratamentos, pediu-me para não insistir na história clínica, nem nas palavras de esperança. Respeitei o seu pedido e falamos de vida, falamos de amor, falamos de amizade, falamos das preocupações do futuro dos seus sem a sua presença.

Saí dali a pensar envolto num tornado de emoções, a fazer balanços, a pensar no significado do dar e receber como se a vida se se apresentasse agora num novo paradigma. O que serão demonstrações de amor? Será que as pessoas se cruzam com o amor sem o perceberam porque nunca o tiveram antes? 
É isto Amor? Tornar difícil a vida dos outros. É um pau de dois bicos certamente, um enigma a encontrar o balanço entre os extremos, mas esta mulher que não me via há três dezenas de anos, mais coisa menos coisa, de quem eu nem sequer me lembrava do nome fez-me perceber muita coisa.

Na realidade abriu uma caixa de pandora em mim, percebi claramente que nunca fui amado neste patamar, mesmo que de facto não a tenha amado, talvez tenha sido uma paixão que se limitou a isso mesmo:o desejo. E que terminada não me deixou memória suficiente para sequer a recordar de vez em quando.
Quando digo ser amado falo da idade adulta, falo de reciprocidade, falo de investimento de um no outro, de lealdade, de compromisso, de dedicação. A falta de amor empurra-nos para várias formas de o procurar, a falta de "tornar a vida difícil ao outro" é-nos transmitida pelos nossos pais, ou por falta ou por excesso e lixa-nos o futuro, lixa-nos as emoções e as razões.

Ontem, umas horas antes deste reencontro, tinha almoçado com as minhas duas filhas, no dia anterior tinha tido uma conversa muito boa com uma delas, a mais "difícil" de todas, uma casualidade que é frequente em determinados momentos importantes da minha vida, felizmente que não sou nada esotérico e na forma pequenina entregar estes momentos a coisas sem sentido, foi também a casualidade de um telefonema que me empurrou para uma reaproximação bonita com o meu pai, foi uma casualidade de um outro telefonema que me empurrou para uma relação que teve tanto de bonito como de feio que terminou pela falta de capacidade de amar de uma pessoa que nunca consegue terminar o que começa , mas se empenha com tudo e mais alguma coisa naquilo que começa e claro que esbarrou com a minha intransigência. Podia ter sido tudo diferente, tudo melhor, não foi.

Mas escrevia eu, que horas antes tinha almoçado com as minhas filhas, e é verdade que lhes tenho tornado a vida difícil, por uma característica do meu carácter; ser intransigente. Disse-lhes isso e mais algumas coisas demasiado intimas para aqui serem expostas, expus-me e atingi-as naquilo que sentem sem que o compreendam, ajudando-as a começar a perceber que há explicações interiores para o comportamento humano e que eu, como pai tenho a obrigação e o dever de me "despir" para as ajudar a burilar as emoções, a esculpir o amor, ajudá-las a perceber que somos sempre melhores pessoas daquilo que pensamos ser e conseguir. E sobretudo perceber que aprendo com o amor que lhes tenho e que a mudança, ao contrário de me desfazer a personalidade, ajuda-me antes a desfazer as inseguranças e, ironicamente, a ficar mais forte e é sabido que o amor é sempre mais sólido quando as pessoas são fortes.

Neste meses de solidão efectiva, enfiado aqui neste pequeno paraíso de verde e azul, tenho questionado a vida, tenho feito demasiadas vezes a pergunta "Como é que vim aqui parar?". É uma opção minha, pela exigência que coloco nas relações, qualquer que seja o género e não as substituo nem compenso por coisas fáceis. Se o fizesse seria violentar-me ainda mais, não o compenso enchendo a casa de animais, tornando-os em pessoas imaginárias, prefiro questionar-me, pensar, reflectir e felizmente tenho uma mão cheia de amigos com quem partilho a aprendizagem.
Há dias num jantar em que eu era o (muito) mais velho numa mesa cheia de gente diferente, alguém me perguntou, perante uma série de coisas que fui debitando em sede de provocação e desinquietação; "como é que fazes e se é possível mudar coisas com a tua idade?".
Respondi que sim, e que esse talvez seja o segredo de nos mantermos vivos, não que o tenha mesmo descoberto, uma intuição igual àquela tão humana que leva os cientistas e os filósofos a não se darem por vencidos e irem sempre em busca de qualquer coisa nova. Disse-lhes, o que aprendi, para já, que é desconstruir o que aprendi à custa da pancada que a vida me vai dando, mas mais importante, à custa da pancada que vou dando de volta para me defender. Depois reconstruir, tendo como base o respeito pela fragilidade do outro. Um dia disseram-me, no inicio de uma relação "Tive medo porque pensei que eras assim comigo, mas já vi que és assim com todos os que amas e todos os que te são indiferentes". Já não era miúdo nenhum quando o ouvi e estupidamente recebia frase como um elogio. Não, não era um elogio, sei-o agora e quando digo não era um elogio, não era que a pessoa de alguma forma não o tivesse feito nesse sentido, estava ela e eu errados. Sei-o agora.

Se esta rapariga, agora mulher à beira de partir que era na altura bonita como o raio, tivesse percebido que aquilo que ali estava a germinar era amor, talvez tivesse lutado por mim, mas ao invés, teve medo, medo de que o que estava a descobrir nela o exactamente que não gostava, erguendo um muro cheio de coisas pequeninas para se defender, o que não gostava mesmo era a falta do amor que até ali não tinha recebido e como tal se tornara incapaz de o reconhecer. Não lhe perguntei quando é que o tinha percebido, seria demasiado egocêntrico concentrar-me me mim e nem era, para mim, importante, procurei saber se tinha sido feliz e realizada, disse-mo que de alguma forma sim e que depois de lhe ter passado a zanga por eu ter acabado a relação sem explicações e sem que ela percebesse as razões, a vida seguiu em frente até ter encontrado o pai dos seus dois filhos com quem ainda está.
Disse-lhe que que voltaria para a ver, recusou "Não, não venhas mais, foi muito bom poder ter-te disto isto, sei que vou morrer em breve e acredita que sinto agora que me faltava dizer-te isto e agora que o disse sinto-me completa e em paz"
Às vezes a vida é muito bonita, às vezes encontrar boas pessoas que nos fazem sentir melhores pessoas, faz-me sentir a utilidade da vida. E sinto o dever de o partilhar, talvez seja essa a razão de tanto gostar de viver para depois poder escrever o que aprendo.

Paulo Leote E Brito

 

 

Modificado emquinta, 09 maio 2019 19:12
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