Dia: 24 de Set
Tribuna do Leitor

Tribuna do Leitor (13)

Há um fedelho!

Cresça um pouco e não brinque com o horário dos mortos

Há um fedelho imberbe, embora já vereador, que apesar de ser Neto de nome nunca soube ser um neto afinal.
Muito menos sabe o que seja ir ver os avós à campa.
É demais sabido pelas gentes de bom senso que há uma imbecilidade alastrante a tomar conta do mundo.

Tal no entanto não deveria colidir com o mundo dos mortos, porque coitados escaparam atempadamente a este mundo merdoso e asqueroso em movimento e como tal deverão simplesmente ser respeitados no seu recolher obrigatório e definitivo a bem da sua paz eterna.
Mas já o que não tem qualquer justificação é a imbecilidade de fechar o cemitério, que pode acolher as suas visitas vivas nos dias em que as mesmas estão aptas a fazê-lo, sendo precisamente esses mesmos dias coincidentes com os fins-de-semana.
Ora por infeliz e inoportuna coincidência, este muito apalermado vereador decidiu, vá-se lá saber porquê, passar a encerrar o cemitério antigo de Albufeira aos sábados e domingos.
E Há um fedelho imberbe, embora já vereador, que apesar de ser Neto de nome nunca soube ser um neto afinal.
Muito menos sabe o que seja ir ver os avós à campa. É demais sabido pelas gentes de bom senso que há uma imbecilidade alastrante a tomar conta do mundo. Tal no entanto não deveria colidir com o mundo dos mortos, porque coitados escaparam atempadamente a este mundo merdoso e asqueroso em movimento e como tal deverão simplesmente ser respeitados no seu recolher obrigatório e definitivo a bem da sua paz eterna.
Mas já o que não tem qualquer justificação é a imbecilidade de fechar o cemitério, que pode acolher as suas visitas vivas nos dias em que as mesmas estão aptas a fazê-lo, sendo precisamente esses mesmos dias coincidentes com os fins-de-semana.
Ora por infeliz e inoportuna coincidência, este muito apalermado vereador decidiu, vá-se lá saber porquê, passar a encerrar o cemitério antigo de Albufeira aos sábados e domingos. E tudo isto no decorrer de uma semana após o falecimento de minha mãe.
Este último sábado bati com o nariz na porta gradeada do cemitério e incrédulo constatei o documento assinado pelo citado vereador outorgando o encerramento do cemitério aos sábados e domingos. Correu bem apenas o facto de o espírito de minha mãe ter dito: “
Está quieto filho!”, Quando já estava predisposto a arrombar o portão com a traseira do meu velho carro. Não há qualquer explicação lógica muito menos fundamentada para tal burrice descomunal. Há funcionários da Câmara a coçar a virilha esquerda para contar à virilha direita mais tarde durante dias a fio. Donde vem a aselhice de fechar um espaço aos fins-de-semana que até tem valor turístico e interesse histórico para a cidade?
Senhor vereador que não sabe ser neto, faça como os carneiros da restauração e feche alargadamente e muito cúmplice com os mesmos que encerram o país à segunda-feira, fazendo no entanto aí todo o sentido.
Cresça um pouco e não brinque com o horário dos mortos.tudo isto no decorrer de uma semana após o falecimento de minha mãe.
Este último sábado bateu com o nariz na porta gradeada do cemitério e incrédulo constatei o documento assinado pelo citado vereador outorgando o encerramento do cemitério aos sábados e domingos. Correu bem apenas o facto de o espírito de minha mãe ter dito: “Está quieto filho!”

Quando já estava predisposto a arrombar o portão com a traseira do meu velho carro. Não há qualquer explicação lógica muito menos fundamentada para tal burrice descomunal.
Há funcionários da Câmara a coçar a virilha esquerda para contar à virilha direita mais tarde durante dias a fio.
Donde vem a aselhice de fechar um espaço aos fins-de-semana que até tem valor turístico e interesse histórico para a cidade?
Senhor vereador que não sabe ser neto, faça como os carneiros da restauração e feche alargadamente e muito cúmplice com os mesmos que encerram o país à segunda-feira, fazendo no entanto aí todo o sentido.

Cresça um pouco e não brinque com o horário dos mortos.

Nuno Elmano da Cruz

 

 

Ler mais ...

Crónica: Ler, acto de viver

A casa vazia, por estes dias só a caturra me faz companhia, a caturra, as osgas e uma ratazana que passou por mim sem pedir "com licença". 

Do lado de dentro da casa; os livros, estantes e mais estantes cheias, mais as pilhas que se amontoam à espera do trabalho de catalogar e arrumar. Por estes dias de calor debruço-me inesperadamente na tarefa, as praias, as estradas, os supermercados, tudo a abarrotar de gente num convite prontamente aceite para ficar por casa. Leio e releio ao calhas, à medida que os vou catalogando num arquivo com que luto há muitos anos. Não sei quantos livros me preenchem, nem estou muito interessado em saber, o que me interessa mesmo é não repetir livros, para isso preciso de ter um arquivo que me permita rapidamente saber se tenho este ou aquele livro. E claro, agilizar o encontro, a memória, esta coisa tão estranha e complexa que nos arruma os passos, nem sempre acompanha as alterações e todos sabem o irritante que é andar à procura de um livro que teima em jogar às escondidas.

Digo muitas vezes que já não terei tempo para ler o que gostaria de ler e que um dia farei o exercício de escolher cem livros para me acompanharem até quanto me calhar de tempo. Talvez o faça, distribuindo os restantes livros por quem tenha interesse. Cem livros que preciso de reler e reler e reler, cem livros que são sempre novos de cada vez que lhes tomo o peso das palavras, cem livros que me renovam a cada leitura. Não devo de precisar sequer de tantos, a escolha é que me corrói, é como ter que escolher qual dos filhos podemos dispensar.

Como nasceu este gosto pela leitura é resposta que não consigo dar, talvez por causa do filho do Pancrácio, o meu avô materno Henrique que assim falava de si próprio confundindo-me durante a maior parte da minha infância, sem coragem de lhe demonstrar a minha ignorância, nunca lhe perguntei quem era o Pancrácio e muito menos quem era o respectivo filho. O tempo encarregou-se de o fazer e já andava pela adolescência quando soube que tinha um bisavô chamado Pancrácio.
Na Quinta de Valmangude tinha o meu avô uma casa enorme, nunca a mandou pintar, foi sempre um bloco de cimento no meio do campo, tinha uma cave labiríntica e um terraço enorme com uma vista fabulosa. Todos os anos passava lá um período de férias, na casa havia uma sala cheia de livros e parte do tempo livre passava-o nessa biblioteca, o meu avô seleccionava as leituras e eu deambulava entre uma arca que o meu pai guardava na casa do sogro cheia de banda desenhada e os livros que o meu avô autorizava a leitura "o menino só pode ler os que estão nesta e nesta prateleira", e mesmo sem perceber patavina lá ia lendo os autores russos que são os que me lembro melhor, e os Mundo de Aventuras do meu pai.
Um dia "roubei" alguns dos livros proibidos, a proibição de os ler não evitava que percorresse todas as prateleiras e aqui e ali a minha curiosidade tendia para a prevaricação. No regresso a casa os livros seguiram-me e não demorou muito tempo até que o telefone de casa tocasse com direito a um mês de castigo sem ver televisão nem ir aos treinos de futebol o que era uma chatice pois era ponto certo que no regresso nem no banco dos suplentes podia assentar arraiais.

Em casa dos meus pais haviam bastantes livros e lia-os sem restrições, por exemplo os Trópicos de Miller forma lidos vezes sem conta. Em casa da minha avó Desdémona também havia livros, mas sobretudo jornais e revistas mas ninguém alguma vez me disse; "o menino leia". Não apoiavam mas também não me desincentivavam, excepção feita na hora das refeições "faça o favor de largar o livro e vir para a mesa imediatamente". Em casa da maior parte dos tios e tias havia prateleiras com livros e não demorou muito a que começasse a construir a minha própria biblioteca; as aventuras dos Cinco e dos Sete, depois o Astérix e o Lucky Luke de cigarro na ponta da boca. Tive a fase do insólito e das ciências ocultas, tive a fase de tudo e mais alguma coisa e ainda hoje assim é.
Por exemplo, vai faltando livros que me surpreendam, contam-se histórias e pouco mais, excepção feita para o Lobo Antunes que escreve a "vida" com mão de mestre. Também gosto do Gonçalo M. Tavares e pouco mais mesmo que teime em ler tudo o que mexe. De resto cada vez mais poesia e ensaios e claro escrever, escrever, escrever nos intervalos da leitura que é coisa que ou se faz uma ou se faz outra. 
É aqui que tenho uma zona de conforto e prazer. É aqui que me apaziguo com a humanidade é aqui que recarrego a vontade de ir lá para fora e beber cada instante da vida.

A casa vazia, por estes dias só a caturra me faz companhia, a caturra, as osgas e uma ratazana que passou por mim sem pedir "com licença". Fui atrás dela numa corrida desenfreada, escapuliu-se porta fora e dei por terminada a perseguição. Continuo nas limpezas, a arrumar o passado no caixote do lixo, regresso aos livros, esses não, esses ficam, ocupando com mais livros o espaço que vai sobrando à custa de tanta limpeza. Se calhar fico eu e os (cem) livros, deve chegar e depois tudo cinzas. Repentinamente um calafrio chega-me em forma de ansiedade "e se perder as faculdades intelectuais?". Regresso rapidamente ao local onde tudo acontece; o presente. É neste presente que quero ficar o mais que puder, é no desfrute do momento que tudo reside. Que se lixe o futuro.

É no ler que se constrói o ser humano, claramente muito mais pobre e impulsivo sem esse calmante que é a leitura. Viaja-se sem sair do sofá, a nossa mente fica como que sob o efeito de uma droga alucinogénia, sentem-se os neurónios a funcionar. Não é fácil embrenhar-me por completo na leitura ou na escrita, há sempre um convite para distrair, sobretudo as responsabilidades, não é possível fazê-lo quando a lista de compras do supermercado aparece a meio de uma frase, ou a data de pagamento da electricidade, ou ter e fazer o almoço quando se está à beira de mudar de capítulo. Na adolescência sim, isso acontecia, só a voz da minha mãe a chamar-me para comer que invariavelmente só ouvia à terceira ou quarta vez me distraía. Tenho saudade desse estatuto de irresponsabilidade, desse mergulhar num mundo paralelo, mas tão rico que por vezes penso que é aí que me sinto vivo.

Do lado de fora, o jardim, a sofrer com o calor. De vez em quando largo os livros e vou ao jardim; as pêras, as ameixas e as uvas estão prontas, os dióspiros, as laranjas e as anonas já dão sinais de vigor. O jardim é pequeno para tanta árvore, os damascos reclamam mais espaço, a tangerineira mal e porcamente respira e refila da sua posição as nespereiras, a amendoeira fura tudo em busca do precioso alimento; o sol. Hoje fui comprar terra e mangueiras novas, desperdiçava-se água com tanto furo nas mangueiras para além de banhos sem convite e terra está seca da falta de nutrientes.
Os Hibiscos estavam secos, encolhidos com ar de quem está para morrer, uma limpeza e uns bons litros de água e eis que o agradecimento não se fez esperar e chegou em forma de uma flor de vermelho bem vivo. Os melros aparecem de manhã cedo, os pardais alimentam-se dos bocados de pão que vou deixando entre as árvores.
Os livros e a contemplação da natureza, são dois prazeres restantes que não troco por nada.

A humanidade está cheia de gente que escreve sobre a natureza, não deve haver um único escritor que não tenha feita uma discrição sobre os actos da natureza, nem aqueles que escrevem sobre as cidades.
Na Quinta do meu avô materno no Algarve ou na Quinta do meu avô paterno no Minho aprendi a deslumbrar-me com a natureza. O conhecimento que o meu avô Henrique tinha sobre a localização dos figos prontos sempre me fascinou. Eu comia-os na tarde anterior e o meu avô ficava possesso quando de manhã os ia apanhar e não os encontrava. Hoje sei bem como é que isso acontece, mas aquele tempo perdido da infância é onde se ganham as memórias que nos tornam no que somos.
Controlar o impulso de os comer antes de tempo é uma sabedoria que os livros nos ensinam, página a página, pacientemente à espera do resto da história, o irritante hábito que o escritor tem de fazer render o peixe. Só me falta mesmo é controlar o hábito de escrever pacientemente. Mais do que o escrever pacientemente o que me falta é a capacidade de rever o que escrevo que é como se sabe a altura de trabalhar a sério. Prefiro escrever mais e mais, "depois logo dou uma vista de olhos" o que interessa é a ideia ficar fixada. Esta é uma das razões para ter a gaveta cheia. Excepção para a poesia que escrevo na mesma sem rever, mas que gosto de regressar uns tempos depois quando já estou esquecido e muitas vezes a pergunta "Fui eu que escrevi isto?", para o bem e para o mal. Esses gostos de rever e de alterar o que deve ser alterado.
Aqui nesta plataforma acontece o mesmo, este mesmo texto está constantemente a ser revisto e rescrito, alguém gentilmente manda mensagem "chatice está mal escrito", é erro e não gralha, admito, esperando que quem lê não leve consigo os erros e deixe para trás a partilha.

Aqui estou, preso neste mundo entre quatro paredes. Mas é um mundo tão grande, tão livre, tão completo que nem reparo no mar que assobia na esperança de me seduzir ou no sol que dá tudo o que tem para me convencer.
Só gostava, gostava tanto que esta partilha mais intima leve uma pessoa que seja, a abrir pela primeira vez um livro ou aos que os abandonaram lhes dê incentivo para os procurar de novo

 

Paulo Leote E. Brito
 
Ler mais ...

Acordo tarde com um grito esganiçado que bradava - Anda cá Brutus! Prontos.

Acho que como não tenho tendências para mudar de sexo, o melhor mesmo, se quiser ser aceite por esta sociedade, (se é que quero) terei que comprar um cão... e um saco de plástico.

São 7 da manhã na praia de Faro.
Acordo tarde com um grito esganiçado que bradava - Anda cá Brutus!
Prontos.
A "Procissão das Necessidades" tinha começado logo cedo. Os canídeos aflitos já tinham acordado a família toda e as donas e os donos ou ás vezes os dois atrelavam-se aos seus fiéis amigos e toca para a procissão. 
Abro a janela e um Brutus em tamanho XXl alivia os intestinos na areia da Ria Formosa junto á passadeira.
Não me contenho, e grito " eu não ainda não fui cagar á sua porta!". Saiu-me, nem me tenho como mal criado, mas não sou de ir em procissões.
A dona do "Burro" voltou-se e visivelmente incomodada, responde - Eu ia limpar!
Prontos.
Esta necessidade estaria quase resolvida, no fim da limpeza vem sempre um pé de areia que tapa as partes mais liquidas que a pequenas mãos não conseguem abarcar.
O Brutus lá foi á sua vida, com a sua dona da Linha, decerto mijar encostado a um saveiro virado ao contrário. 
O Sol vai subindo e a procissão continua. 
A Av. Nascente da Praia de Faro do lado da Ria tornou-se a instalação sanitária de devotos canídeos de todas as raças, finos e atrelados a donos e donas de todas as idades. 
Lulus, pastores alemães, caniches, boxers e até rafeiros alentejanos defecam religiosamente nos mesmos sítios todos os dias,
Os donos, também eles das mais variadas raças, transportam os saquinhos com que apanham os dejectos dos seus queridos "filhos". Às vezes, transportam os saquinhos. Às vezes.
Passa agora uma senhora de fio dental com 3 bichos tipo Buldog rebaixado que se lhe enleiam nas pernas. 
Conheço, a senhor claro. Pergunto pelo saco, mostra-me um saco cor-de-rosa que eu pensava que era um adorno do Biquíni. Boa. Afinal já há sacos para merda fashion. Merdas que eu nem tinha pensado. 
Um pouco mais ao lado, um casal de namorados ainda adolescentes, ou mesmo crianças pois adolescentes agora vão até aos 24 anos, passeiam um Huskie branquinho. ás vezes beijam-se, os namorados sonhando em nunca ter filhos. O Huskie alivia as necessidades fecais. Saco não há. É uma geração mais avançada e deve ter uma aplicação no telemóvel que fará a transferência da Merda para a sanita da casa alugada.
Imediatamente a seguir a rapariga abraça e beija o cão efusivamente. Deduzo que andaria de prisão de ventre (o cão, claro) e que finalmente se poderia dormir qualquer coisa lá em casa.
Do lado direito surgem duas raparigas do mesmo sexo, já entradotes que em passo apressado qual puxadas por 3 cães de trenó, sonham chegar á Barrinha e banhar-se em família antes que venha a invasão de barcos a motor carregados com malta que veio das praias onde o Marcelo toma banha. 
É a segunda fase da procissão, são os que não dormiram na praia e vieram cedo para arranjar estacionamento. 
Em sentido contrário uma senhora embrulhada num pano colorido com óculos Prada trás dois canitos que não consigo identificar. Cumprimenta. 
Do outro lado vem um homem, fumando, não conheço, acho que veio contrariado pela cara que trás. A mulher que ainda deve estar dormindo deve tê-lo mandado passear o cão, pois está de férias, ela, claro, e tem de dormir mais um bocado. 
Prontos.
O calor já aperta e a procissão enfraquece de devotos. 
Percebo pois como é possível ouvirmos dizer a um ministro que o problema da CP é do Verão. Percebo porque diz António Costa que precisamos de imigrantes. Percebo como se pode ouvir Marcelo dizer que já está tudo bem com os incêndios e que já está tudo controlado. Percebo como pode o Bloco de Esquerda justificar o Robles. Percebo que o governo aumentar 10 euros nas reformas seja o suficiente para as sondagens lhe darem a maioria absoluta, Percebo porque ninguém se indigna e diz que nucas estiveram tão bem na vida. 
Percebo que cada vez estou mais longe deste marasmo, e que vou ser descriminado. Acho que como não tenho tendências para mudar de sexo, o melhor mesmo, se quiser ser aceite por esta sociedade, (se é que quero) terei que comprar um cão... e um saco de plástico.  

Boas férias.

By Fanan



Ler mais ...

Mia e o senhor Manuel

 

Crónica: Mia e o senhor Manuel 

Mia é uma gata sphynx, daquelas que custam mil e quinhentos euros e que precisa de cuidados extremos; "a cada dois dias come peito de codorniz, peito de frango e carapau fresco só com um escaldão" seja lá o que isso for, tudo isto "sem sal nem gorduras". "Bebe água de Monchique (pelo seu ph neutro) e do Luso porque ajuda a trabalhar os seus rins". Na higiene os cuidados não abrandam "usa gel de banho recomendado para bebés de foram a manter saudável a gordura da pele".
Assino a Visão por causa das crónicas do Lobo Antunes e aproveito para dar uma vista de olhos pelos diversos artigos e nunca consigo passar das primeiras linhas da crónica do dispensável Araújo Pereira. Retirei da Visão este trabalho sobre animais de estimação e não passo ao parágrafo seguinte sem antes reproduzir mais um dos cuidados a ter com a Mia "e se a gata se cortar, hidrata e cicatriza a ferida com um creme de óxido de zinco, óleo de coco ou vitamina A." No relato acrescenta-se "uma bolinha de croché com um guizo e umas vitaminas com taurina para fortalecer a vista e o coração de Mia."

Há dois anos Manuel bateu-me à porta e pediu para alugar um quarto numa casa que tenho disponível. Manuel tem 70 anos, na altura andava a tratar da reforma e trabalha num restaurante ali perto como grelhador. Percebia-se que a saúde o atormentava, arrastava o andar como se estivesse acorrentado ao peso dos anos somados de disparates. Percebia-se que já tinha alguns problemas de senilidade. O tempo passou e poucas vezes nos vimos, mesmo para pagar a renda o senhor Manuel entregava o envelope no vizinho que sabia ser meu amigo. Uma anormalidade já que nunca me pediu autorização para o fazer. Também nunca lhe disse nada. Nunca falhou com o envelope, às vezes engana-se nas contas e faço vista grossa nada lhe dizendo e por vezes até tenho vontade de lhe devolver o restante. O quarto que na altura lhe mostrei, sinceramente, era para ele recusar, mas não recusou. Nem janelas tinha e anteriormente servia-me de armazém. Disse que sim, insistiu que lhe servia na perfeição. Mandei pintar o quarto, coloquei uma mobília e até uma televisão. Era o mínimo que podia fazer mesmo sabendo que nada exigiria.

Com visíveis dificuldades cognitivas raramente se lembra de desligar o esquentador e tanto teimou com a maquina de lavar que acabei por ter de comprar uma nova. Por vezes pago a alguém para limpar o resto da casa e aproveito para pedir para não se esquecerem do quarto do senhor Manuel que é pouco dado a cumprir a responsabilidade de manter o quarto limpo.
Há uns meses atrás precisei de resolver uns problemas na casa e era preciso aceder ao quarto do senhor Manuel mesmo que nunca feche a porta do quarto peço sempre autorização para entrar no quarto. Não o encontrava em lado nenhum, até que soube que duas semanas antes tinha se sentido mal e tinha ido de ambulância para o hospital; "Uma pneumonia" afiançavam, mas ao certo ninguém sabia de nada. Fiz uns telefonemas e lá descobri que o senhor Manuel estava internado com um ...AVC".
Cinquenta quilómetros depois fui encontrá-lo com o melhor aspecto que alguma lhe tinha visto e nada de novo lhe encontrei, estava mesmo na melhor forma de sempre.

Ficou surpreendido por me ver ali, até os olhos brilharam e mal disfarçou uma lágrima. Três semanas internado e nenhuma visita. Nem a morada certa tinha dado, estava lá a mais recente que se lembrava. Preocupado com o pagamento da renda que nem se lembrava que estava ainda em dia, disse-me na segunda vez que lá fui; "Vamos ao banco para eu levantar dinheiro para lhe pagar a renda". Disse-lhe que isso não interessava nada o que era preciso era que recuperasse bem. Dele nada sabia a não ser algumas coisas que verbalizava "Fui fotografo", mais tarde soube que tinha tido um restaurante em Lisboa, daqueles bem frequentados por politicos e desportistas. As coisas tinham corrido mal e o abismo onde caiu levou-o até aquele quarto, tendo no bolso uma reforma de pouco mais de quatrocentos euros. Fuma e não sei como faz para comer. Durante algum tempo ia a uma associação buscar comida, depois deixei de ver as caixas de plástico onde trazia a comida.

Descobri que tem sete filhos, mas não sabe deles, e dos nomes lembra-se do da filha mais velha e baralha-se com outros dois cuja memória ainda retêm um pormenor "Foram os gémeos do ano de 1969". Deduzi que devem ter sido os primeiros bebés do ano. O paradeiro deles é que nem sombra e nem se mostra decepcionado "Tive três mulheres e não fui assim grande coisa como marido e como pai, não me sinto à vontade para os procurar". Claro que esta frase não é original, é composta de algumas palavras em resposta a outras tantas perguntas e resumida para melhor se entender.

Daquela unidade foi para outra, noutra cidade. Ali já estava fora da cama e numa das visitas convenceu-se que o ia buscar para o levar para casa. Mas não, ainda tinha uma viagem grande para fazer, mas deixei a promessa de o vir buscar no dia em que tivesse alta. Uns tempos depois um telefonema do hospital "Por acaso sabe do senhor Manuel?", o senhor Manuel tinha desaparecido. Não sei bem como mas apareceu no café ao lado da casa, pediu uma tosta mista, uma meia de leite e pouco minutos depois já estava no chão à espera da ambulância.
Regressou à unidade de avc do Hospital e lá ficou à espera da alta e da boleia no dia aprazado. Por alguma razão o hospital decidiu encurtar o prazo e como estava a trezentos de distância, enfiaram-no numa ambulância e deixaram-no à porta de casa.
Antes, numa das visitas, a assistente social dizia "O que é normal é o senhorio aparecer aqui com os pertences a informar que já alugou a casa a outra pessoa".

Dois meses depois regressou a casa, antes o quarto tinha sido limpo, os trinta quilos de roupa que compõe o seu espólio, lavados, engomados e arrumados e os papeis e fotografias que lhe restam de uma vida colocados num dossier.
Regressou também o hábito de fumar só que desta vez resolveu contrariar a regra de não se fumar dentro de casa. No bolso uma maço de notas que tinha ido ao banco levantar todo o saldo acumulado naqueles meses de internamento. A desorientação era visível como era a compreensão do que se passava com ele. No dia seguinte encontrei-o na esplanada do café a comer um bife com batatas fritas e ovo a cavalo, ao lado uma de três imperiais que pediu para empurrar aquele monte de comida.

Do hospital vinha com uma receita, trinta euros mensais de comprimidos para várias maleitas, fui à farmácia aviar a receita, passei por uma drogaria para comprar uma daquelas caixas de plástico "Manhã, Almoço, Jantar" e coloquei os comprimidos em ordem. Uns dias depois percebi o caos e o mais certo era o senhor Manuel apanhar uma overdose se persistisse nesta ideia.

Que fazer?! Contactada uma associação da zona, percebi que não há vagas e a lista de espera é enorme. Decidiu-se pelo centro de dia, vão buscá-lo, toma banho, lavam a roupa, dão-lhe de comer e os comprimidos e ao fim do mês sobra-lhe um euro e mais alguns cêntimos. Por sorte os funcionários são suficiente humanos e aceitaram uma cópia da chave de casa e lá o vão acordar e ajudá-lo a vestir e ao regresso abrem-lhe a porta. A Câmara Municipal oferece os comprimidos e um subsidio de renda através de uma fórmula que tem mais para dar errado do que certo sendo que o certo arredonda a coisa para lhe sobrar por volta dos quarenta euros. Entretanto começou a usar fralda e como nunca se lembra do meu nome chama-me "Patrão" que lhe parece apropriado. As fraldas são dispensadas pela pela associação, só não sei até quando. A autoridade tributária reclama mais de novecentos euros de IRS que nem sei como é que ele o preencheu. Deve ter sido algum automatismo do sistema. O que vale é anda com o saldo da conta bancária no bolso. Para o tabaco é não encontrei patrocinador.

O senhor Manuel pode ficar no quarto enquanto precisar, não devia era de precisar. Percebo perfeitamente que haja quem opte por gastar mil e quinhentos euros numa gata sphynx e lhe dê peitos de codorniz, carapaus só com um escaldão e vitaminas com taurina.

Ler mais ...

"Bruno de Carvalho não se demite. A crise no Sporting continua. A selecção já está na Rússia"

Bruno de Carvalho não se demite.
A crise no Sporting continua.
A selecção já está na Rússia

"By Fanan"

Cristiano Ronaldo voltou para trás e deu um abraço num miúdo
Bruno de Carvalho vai processar os jogadores.
Marcelo deu banho no mar dos Açores.
Hoje é o primeiro treino da selecção na Rússia
Os moços da Juveleo continuam presos.
Não vai haver Assembleia Geral no Sporting.
Vai haver Assembleia Geral no Sporting. 
A selecção já está na Rússia.
Bruno de Carvalho não se demite.
A advogada do Fernando Mendes é do Porto.

O que vale é que chove todos os dias.
Se que houvesse incêndios, teriam de abrir mais três canais de televisão para arranjarem espaço para essas noticias. Finalmente um governo com um plano para acabar com os incêndios. Custa mais 47% em ajustes directos mas pelo menos inclui chuva dia sim, dia não…

A única notícia que deve ser mentira é que Costa teve um almoço com Vítor Gaspar e diz que não há dinheiro. Deve ter apanhado o vírus, ou pior , acordou.

As greves passam em rodapé sem qualquer destaque, afinal Passos Coelho já não é primeiro-ministro. 
Bruno de carvalho não se demite.
A selecção já está na Rússia...

As televisões andam a contratar comentadores desportivos nas empresas de trabalho temporário para cobrir tanta bola...

Uma miséria franciscana. Já nem se vê o Papa.

Fernando Santos

"By Fanan" Revista da semana

 

 

Ler mais ...

A dez à hora

(…) “Sócrates será absolvido mas o PS quer mata-lo politicamente para que não aconteça (…).

Paulo Leote E Brito

1 - O primeiro-ministro António Costa diz sobre Pinho e Sócrates que "Se estas ilegalidades vierem a confirmar-se serão certamente uma desonra para a nossa democracia".

2- O líder da Geringonça demarca-se assim em definitivo do seu ex-amigo e antigo líder do partido a que agora preside. Numa forma que tresanda a deslealdade.

3- Nem sequer evoca o "deixamos a justiça trabalhar" ou um compreensível "esperemos pelo trânsito em julgado." 

4- António Costa enterra o político Sócrates de forma definitiva, mesmo que venha a ser absolvido, Costa já fez o seu julgamento e condenou o seu ex-colega a uma sentença de morte política.

5- Carlos César que tem imensos telhados de vidro e que tanto tem passado pelos intervalos da chuva armou-se em virgem ofendida e aparece a exemplificar quanto nojento é o "balneario" da política nacional.

6- Mais vozes se têm feito ouvir o que demonstra a concertação para "limpar" podridão intelectual que grassa no partido socialista.

7- Mas...E este "mas" incomoda-me mais do que gostaria, incomoda-me e sobretudo preocupa-me, mais a mais porque não vi ninguém pegar na segunda parte das declarações do primeiro-ministro a respeito de Sócrates.

8- Costa diz só isto: "Mas se não vierem a confirmar-se (as acusações contra Sócrates) é a demonstração que o nosso sistema de justiça funciona"

9- Ou seja se as acusações resultarem na condenação de Sócrates isso significará que o nosso sistema de justiça não funciona?! Que raio quis Costa dizer com isto?

10 - Primeira leitura que faço é que Sócrates será absolvido mas o PS quer mata-lo politicamente para que não aconteça o mesmo que aconteceu com Isaltino Morais que ao pé de Sócrates não passa de um menino de coro. Vivemos o período mais imoral da muito imoral história da política nacional que já nem sequer encontra paralelo no conturbado período da primeira república.

Ler mais ...

A humanidade a transformar-se em pó e as cinzas chagam mais longe em dia de vento

Paulo Leote e Brito, homem do futebol, jornalista/repórter meio aposentado, conversador nato e contador de histórias vividas, quando está bem-disposto e sem sono escreve como só ele sabe e com a mestria de seduzir os leitores. Dito isto, leiam mais duas crónicas à laia de desabafos

Por Paulo Leote e Brito

A humanidade a transformar-se em pó

Viver a vida rodeado de flores e amor, seja lá o que isso for, não é viver. Também não é sobreviver.

É sonhar! É um suporte de vida dourado.

Não sei se existe e se existe o mais parecido que encontro para comparar é a Paris Hilton e sucedâneos.

Nomeio a rapariga, confesso, por preguiça, foi o primeiro nome que me veio à cabeça, exactamente para recusar a ideia de que viver bem é viver de flores e amor, seja lá o que isso for.

Não faço balanços prolongados e muito menos definitivos de vida mas há coisas a que me vou chegando como quem burila um diamante que é isso que a vida é; um diamante em bruto para ser burilado.

Li no meio de muitas leituras um pequeno texto de alguém que não retive o nome, que por sua vez estava a ser citado por outra pessoa e que se referia às leis que a esquerda vai impondo por falta de assunto e que a carneirada que também não tem assunto, se encarrega de tomar como sua qualquer idiotice sugerida.

É óbvio que há coisas que faz sentido falar delas, mas que devem ser discutidas e encaixadas nas prioridades que a sociedade reclama, não prioridades que alguns membros egocêntricos da sociedade reclamam.

Digo egocêntricos, como podia nomear outra patologia, porque é de patologias que falo.

Voltando ao início deste amontoado de palavras, para dizer que a minha vida, como a da maior parte das pessoas, não é um monte de flores nem tão pouco uma barriga cheia de amor, seja lá o que isso for.

Ontem ouvi um desabafo de alguém que passa a vida a ser mensageiro de más novas; "tenho um familiar em coma há 12 anos, já gastei, eu e meus irmãos e irmãs, para cima de 200 mil euros", sem mais detalhes, concluímos que a invocação do lado material é uma forma de dar força ao lado racional que é o de desligar a máquina, o familiar com 92 anos já terminou há 12 o seu ciclo de vida.

Há quatro dias, estacionado na sala de espera de um hospital escutei uma conversa "...foi despejada e com a roupa que tinha no corpo..." interrompi a leitura que fazia, sem mexer uma pestana, e estava a remoer o que acabara de ouvir, que é já um quadro costumeiro nos dias que correm, quando outra frase me paralisou ainda mais "...por isso é que não veio hoje ao hospital fazer as análises ao bebé...". Percebi que um mensageiro de más novas tinha acabado de expulsar uma jovem, com a roupa que tinha no corpo e um bebé nos braços.

Por outro lado, há uns anos atrás conheci uma jovem que mesmo avisada e "reavisada" teimou num comportamento que a condenou a uma vida errática que descambou em drogas, prostituição, filhos de vários parceiros a crescer em instituições e não, não se pense que era filha de gente modesta e de pouca instrução que é como quem diz, gente que passa o dia a comer batata frita de pacote e cuja conversa tem somente capacidade para resumir uma telenovela ou duas e um big brother ou casa dos segredos, seja lá que trampa estejam a agora a passar na televisão.

Se esta crónica fosse um romance, o mensageiro de más novas seria o mesmo da familiar em coma que expulsou de casa a miúda dos (re)avisada com um bebé ao colo e não faço ideia se o romance acabaria num drama ou se teria um final feliz.

O que sei é que a vida me tem trazido tantos dissabores como momentos de alegria. Muitos dos momentos de alegria resultaram da forma como enfrentei e resolvi os dissabores que acho que assim é que deve ser.

Tendo a afastar-me dos eufóricos para não os contaminar com a minha força da gravidade que me empurra os pés para solo seguro, mas sou intolerante para com as vitimas como forma de ser e estar, porque essa é uma contaminação que se propaga pela mente e corpo até definhar todo e qualquer relacionamento.

Esquartejava eu a esquerda, como de costume, uns parágrafos lá mais atrás quando a mão resolveu por si desviar-me do caminho.

Peço desculpa, não por isto da mão, mas à esquerda, por vezes deixo-me guiar pelas emoções e elas são fruto da minha experiência de vida.

É sempre a esquerda, irrequieta, imatura, adolescente, rebelde, e todos sabemos que os adolescentes rebeldes podem estar a maturar uma doença mental, mas dizia, porque é que é sempre a esquerda a lutar por direitos que parecem ser do senso comum e exercidos pelas pessoas de direita, também apetece dizer, seja lá o que isso for, porque, muitas vezes, educação e formação cheiram a conservadorismo. Mas escrevia eu, as minhas emoções são fruto da minha experiência de vida, e a forma como reajo perante a sociedade é um reflexo disso mesmo.

Tudo isto para regressar ao tema que li, cujo autor não me lembro, que interpelava a inteligência de quem o lê colocando algumas questões, já não sei se era ele que as colocava, ou se foi a minha interpretação que o fez, apontando o exemplo de que se uma pessoa abandonar um idoso, incontinente, incapaz entre outras surpresas que a vida nos oferece, à porta do hospital, se o fizer nada de criminoso lhes é apontado. Mas se fizer o mesmo a um cão...

Não escrevo mais nada que este espaço é curto e desaconselhável para textos longos.

Também não tenho nada para dizer, isto sou eu a pensar e a mão, sempre a mão, toma conta do pensamento e os dois cozinham estas coisas cheias de letras. Eu leio e ao ler produzo mais pensamento e o pensamento pega na mão e lá vão eles... Até que há um momento que digo; Basta.

Então, o pensamento e as mãos vão fazer outra coisa qualquer.

Escrito por Paulo Leote e Brito em 10.02.2012

 

As cinzas chagam mais longe em dia de vento

Ontem cheguei tarde a casa.

Sem saber onde deixei o sono, que é coisa rara.

Não sei se deva preocupar-me, por não saber onde coloquei o sono.

Ainda não tenho idade para me esquecer assim das coisas, às vezes não sei onde estão os óculos que uso para ler o Correio da Manhã ou as chaves de casa, mas isso é mais porque a minha mulher tem a mania de limpar a credência e acha que as chaves ficam melhor no chaveiro.

Eu não, dá-me mais jeito assim, abro a porta e ponho logo as chaves em cima da credência.

A minha mulher diz que risca o mármore, que é uma credência com um tampo de mármore importado, veio das colónias, a minha mulher é retornada que era assim que se chamavam os portugueses que tinha ido lá para a terra dos pretos para os explorar e depois quando a devolveram aos donos legítimos tiverem de retornar.

Não sei bem se é retornar, a minha mulher é de Casal de Cambra e eles retornaram para Loures que era terra que nunca antes tinham visto.
Falava das chaves, não era?!

Pois, ela embirra com as chaves em cima da credência de mármore importado que os pais trouxeram de África, porque pode riscar, e leva aquilo muito a peito, mesmo que eu ponha sempre as chaves em cima no naperon que a mãe dela, ou a avó, não me lembro ao certo qual, bordou que como era do enxoval não ficava bem não o usar e sempre protege o mármore importado do pó.

Protege do pó e não protege das chaves, diz ela, por causa dos buracos do naperon. Já lhe disse que o mármore gasta-se mais com as polidelas que ela lhe dá, pelo menos uma vez por dia, do que o pó as chaves e a correspondência, que é ela sempre que recebe o correio mas diz que o papel não risca.
Já não me lembro do que queria dizer.

Ando assim, mais esquecido, mas todos dizem para não me preocupar, pode ter sido por causa de me ter reformado recentemente.

Não que eu quisesse, mas a empresa mudou de dono, e uns meses depois o novo proprietário disse que para não ter que fechar o negócio tinha que despedir o pessoal mais velho e eu que entrei como aprendiz aos 12 anos, era dos mais velhos, só o Carlos dos Anzóis é que estava lá há mais tempo.

Fui dos primeiros a ser dispensado. “Você já trabalhou muito, aproveita para desfrutar, ainda é novo pode ir fazer as coisas que gosta, fica com mais tempo para a família”, eu ainda pensei dizer-lhe que agora já não precisava de tempo para a família que os filhos já estavam na vida deles e só apareciam aos domingos e nos dias de aniversário, mas nunca fui de conflitos e calei-me. Aceitei a decisão e cá estou. Ainda urino bem, sem ser às pinguinhas, como o coitado do Rodolfo, vou sempre à mesma hora à casa de banho, sinto-me bem, os filhos estão na vida deles, vêm sempre comer o cozido aos domingos mas não trazem netos porque ainda não têm filhos. Às vezes sou assim, digo umas coisas com graça, lá nas oficinas riam-se muito das coisas que eu contava, diziam sempre o “Florival é fino e atento”.
Posso dizer que sou feliz, a casinha está paga, faltavam ainda umas prestações, mas com a indemnização pagamos logo tudo. Deu também para comprar uma máquina costura nova que a minha mulher faz uns arranjos em roupas, uma televisão, destas novas muito magrinhas e fomos a três excursões; a Fátima, a Sevilha e ao Algarve.

A Fátima fomos também ver as grutas de Serra D’Aire.

Planeamos fazer mais excursões, mas a minha mulher tem sempre umas costuras para fazer, felizmente trabalho não lhe falta e sempre dá para acomodar as poupanças.

Já me disse que se eu quisesse podia ir que ela ficava bem. Mas não acho bem deixá-la sozinha e eu também não gosto muito de andar aí a passear sem ela.
Ontem fui a um jantar com os amigos da sueca, fazemos sempre todos os anos um jantar, voltei tarde, deixei as chaves em cima do naperon que cobre o mármore importado da credência e fui até à sala, agarrei no comando da televisão magrinha e andei a pular canais sem saber o que fiz ao sono que desapareceu por completo. Depois fiquei um bocadinho a pensar no que tinha comido e bebido para ver se descobria o mistério do sono desaparecido, foi quando percebi o que tinha acontecido ao sono; o malandro, fugiu com o café que tomei.

Está o mistério resolvido, agora é esperar que o café se aborreça com o sono e o mande de volta para mim.

Às vezes digo coisas com graça, já na oficina o pessoal ria-se destas coisas.

Acho que tenho algum jeito para dizer graças.

Escrito por Paulo Leote e Brito em 11.02.2012

Ler mais ...

“O Centeno pediu bilhetes para a ir à Bola ou foi convidado pela direcção do Benfica a assistir a um jogo de futebol? (…)”, pergunta Paulo Leote e Brito no seu “Dez à hora”

“Tal como o porreiraço do primeiro-ministro não pode dizer que se Centeno "pediu era porque certamente tinha boas razões para o fazer". 

Paulo Leote e Brito

1 - O Centeno pediu bilhetes para a ir à Bola ou foi convidado pela direcção do Benfica a assistir a um jogo de futebol?
2 - Se pediu, pediu a quem, à secretária "Oh Balsemina, arranje-me lá uns bilhetes que me apetece ir ver o Benfica" e a rapariga viu-se aflita para os arranjar e ou comprava no mercado negro ou pedia a alguém do Benfica.
3 - Ou o ministro ligou directamente para o presidente do Benfica provavelmente porque já o conhece desde os tempos em que ia meter pneus novos no carro.
4 - Parece-me cordial que os clubes convidem alguns governantes a assistir a um jogo. Presidente da CM Lisboa, presidente da república, primeiro-ministro, presidente da assembleia, presidente da junta de freguesia e de repente não me lembro de mais ninguém "convidável".
5 - Há muitos anos, esta história passa-se logo a seguir à revolução, havia uma porta no estádio da Luz por onde entravam todos os que tinham algum cartão que lhes desse acesso livre ao estádio.
6 - Estava na fila para entrar, era um derby isso também me lembro, quando oiço um senhor que estava à minha frente a esclarecer o sempre feroz porteiro "Eu sou ministro!" Eu sou ministro!" "Eu sou ministro!". Lá entrou o ministro, com o porteiro com cara de não o conhecer de lago algum, mas a não querer arranjar problema caso o homem fosse mesmo ministro. E era, era o Vítor Alves e não me parece que fosse dos medíocres, antes pelo contrário. 
7- Na mesma porta, uns anos mais tarde vi o Coluna a ser barrado na mesma porta, já era homenzinho e não me contive "mas o senhor não vê que é o senhor Coluna?", meio atarantado, o porteiro só repetia que não tinha creditação e ele não tinha ordens para deixar quem não a tivesse. Alguém que também o reconheceu levou-o para a porta por onde entravam os jogadores e lá as coisas ganharam rumo mais digno para a velha glória benfiquista.
8 - Estas duas histórias, talvez com 15 anos de diferença a que se soma esta do ministro das finanças a pedinchar uma borla ao presidente do Benfica merecem-me bastante reflexão.
9 - A primeira é que os tempos mudaram, e definitivamente, vivemos a época da pouca-vergonha instalada e é altura de relembrar que "à mulher de César não basta ser honesta, tem também de o parecer". Tal como o porreiraço do primeiro-ministro não pode dizer que se Centeno "pediu era porque certamente tinha boas razões para o fazer". 
10 - Incomoda-me a invasão de privacidade, mas também sou da opinião de que havendo interesses superiores se deve denunciar punindo quem deve ser punido. Porque se houve vantagens tiradas nesta ligação, pelo filho do presidente do Benfica então temos de saber a verdade. E já agora saber a razão do perdão à Brisa, EDP, Galp e sabe-se lá mais quem.

(…) “Propunha para avaliação, para além do Sócrates, o Arménio da CGTP mais o do Sindicato dos professores” (…).

1 - Se existissem exames psiquiátricos para determinar e avaliar a possibilidade de algumas pessoas poderem desempenhar tarefas como as de primeiro-ministro ou treinador de futebol desconfio que havia alguns partidos e clubes de futebol que teriam de procurar outros líderes.
2 - Nos Estados Unidos da América vários especialistas são convidados a dar opinião ou até mesmo a escreverem diagnósticos sobre o presidente Trump.
3 - Tenho duas perspectivas antagónicas, uma que me leva a pensar sobre por que raios de ética se regulam os cientistas que concluem que Trump sofre de um transtorno de personalidade conhecido por narcisismo. A outra é que têm toda a razão.
4 - Há muito que pergunto no meu restrito círculo de amigos o porquê de nenhum órgão de comunicação social se ter lembrado de convidar psiquiatras a comentar a personalidade evidentemente transtornada de, por exemplo, José Sócrates.
5 - Ou será que a Ordem não lhes permite fazer diagnósticos públicos.
6 - Se assim for muito bem, mas que fariam um excelente e útil serviço público não tenho nenhuma dúvida.
7- Contudo, nos tempos em que ainda via televisão, ouvi um médico especialista avançar, cautelosamente diga-se. Com um diagnóstico sobre um suspeito de vários assassinatos.
8 - Garanto que voltava a ver televisão se um especialista em psiquiatria fosse convidado por uma televisão e aceitasse, claro, para fazer avaliações de carácter e diagnósticos sobre algumas figuras públicas que intoxicam a vida pública deste país de... Loucos!
9 - Propunha para avaliação, para além do Sócrates, o Arménio da CGTP mais o do Sindicato dos professores, o Duarte Lima, o Salgado, o Zenial Bava, o Bruno de Carvalho, o Sérgio Conceição, o merdas do Quadros, o Castelo Branco e mais uma mão cheia que me escuso de nomear.
10 - De fora deixei os casos de óbvia senilidade ou simples estupidez. Sejam livres de apresentar mais nomes e tentem não confundir pessoas sérias e honestas imbuídas de valores em desuso com(o) pessoas com transtornos de personalidade.

Ler mais ...

Não é só em Berlim que habitam muros

 

Há vezes que são duas. Nunca mais do que três. Geralmente é uma, só uma. Uma pessoa é habitada por muitas vidas.

Por Paulo Leote e Brito

Quantas vidas são precisas para se fazer uma pessoa.

E quantas pessoas podem caber numa vida.

Não pontuo estas interrogações.

Há perguntas enfermas de resposta.

Passo a barreira, aquilo não é uma barreira.

Aquilo é um muro, um muro vigiado, um muro alto, vigiado e espesso.

Do lado de lá é que está tudo o que interessa saber.

Interessa-me a mim que sou curioso e gosto de saber o que está por detrás dos muros.

Sabe-se que não é coisa boa.

Sempre desconfiei de pessoas vestidas de gabardine.

Ou que andam com óculos escuros.

E pessoas que nunca tiram o chapéu e usam barba. 
Acho sempre que do lado de lá dos muros andam pessoas nuas.

Nuas e tristes.

As pessoas que habitam desse lado e que andam nuas e tristes nunca se deixam abraçar. 
Os gordos usam roupa larga.

Se um magro usar roupa larga toda a gente o escarnece.

As mulheres que são surpreendidas pelo envelhecer usam lenços na cabeça e óculos enormes nos olhos.

As vezes não temos tempo que chegue para preencher a criança que somos e a velhice apanha-nos desprevenidos.

A morte reclama a presença dos vivos, mas nunca nos quer vivos.

Os hospícios são habitados por excedentes cuja liberdade não é compreendida.

Os sem-abrigo habitam no purgatório ou são também excedentes de uma sociedade que não tem clubes privativos que cheguem para albergar tanta gente.

Em Florença cruzei-me com um espanhol que anda pela europa a dar abraços grátis. Aceitei claro.

Ao seu lado estive dez minutos a roubar-lhe a ocupação.

Frustrante, nem um consegui dar.

Passa-se algo errado com os meus abraços.

Vou comprar um martelo e vou derrubar o meu muro.

Ficarei nu mas livre, não estarei triste e não tenho medo nem do desabrigo nem do hospício.

Só sei que aprendi a não gostar de muros.

Vou tratar do meu e desistir de derrubar muros alheios.

(em memória das madalenas irlandesas).

Ler mais ...

As minhas apoquentações…

Encarando os dias de vivência sem fazer conta à duração do passado, concluo que tenho existido em prestações, vezes sem tenteio a sorrir, como outras a lacrimejar, temporadas a comer em hotéis estrelados, casinos do pecado, albergarias de luxo, mulheres amores de sonho, namoradas com dor de corno, quadras temporais de cliente assíduo de tabernas e tascas com minis e tremoços, tudo numa mescla a dormir de dia, de noite e às horas desencontradas com recebimentos e pagamentos faseados com juros altos e baixos. Homem de mil amigos, também, inimigos invejosos, ontem e hoje, consciente e usurário a tempo inteiro da liberdade de viver ao “meu modo”.

João Pina

Carteira Profissional de Jornalista Nº 4. 408

Na tarde sombria de um pinheiro centenário, albergueiro de sardinhada salina com batata e orégãos à montanheira em tarde de veraneio, bem molhada com vinhaça e oriundos de medronheiros de Monchique e, consecutivo passaporte de regresso ao aconchego da tarde para a sesta das horas calorentas, aterro no mundo dos sonhos, acaso, apoquentações da alma.

Enquanto, repouso em horários ilustres vagueando pela meia-luz da noite, acordo quando devia dormir.

E, eis que, embuchado no amigo sofá, caibo no enredo de fitas cinematográficas de putas, traficantes e agiotas de fusca deitada na mão, extorquindo o pão de cada dia aos avariados do sistema em vigor na sociedade do século XXI.

Na hora de acordar, como bom cidadão que, ainda vota em dias de eleições do faz de conta desta democracia tirana e mercadejada, memoro o meu “25 de abril” de cravo vermelho na mão de braço alçado na direção da utopia de felicidade de ser livre, adormeço, para três ou quatro horas de, pelo menos, sonhar que a geração do meu sobrinho Jerónimo e da “mulher amor da sua vida” não tenham pesadelos como eu, pobre rico de espírito” e os amigos do meu tempo transportamos às costas.

Armação de Pêra, 13 de agosto de 2017

Ler mais ...
Assinar este feed RSS
×

Sign up to keep in touch!

Be the first to hear about special offers and exclusive deals from TechNews and our partners.

Check out our Privacy Policy & Terms of use
You can unsubscribe from email list at any time