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Itens filtrados por data: domingo, 06 maio 2018

Mantive ao longo da Basquetebol: Um desporto correcto e excitante minha vida uma relação muito ecléctica com o fenómeno desportivo, bastante para lá do futebol.

(…) “Treinadores, dirigentes e árbitros vestem-se com elegância e tratam-se com cortesia. Cada vez que saio do Rehnus, venho com a alma lavada. Valeu o dinheiro que paguei, todos deram o melhor de si próprios, com suor e mestria nos lançamentos (…)”.

José Mendes Bota

A minha vida uma relação muito ecléctica com o fenómeno desportivo, bastante para lá do futebol.
Fui praticante federado de atletismo e andebol, dirigente associativo no ciclismo e em vários clubes, mas sempre acompanhei com interesse e paixão outras modalidades, num espectro tão vasto que vai da canoagem/vela ao esqui, passando pelo hóquei em patins e no gelo, golfe, futsal, natação, râguebi, voleibol, ténis, até o tiro ao arco não escapa, e que me desculpem os adeptos de outras variantes se acaso aqui as omiti.
A televisão tem permitido com cada vez mais pormenor e conforto assistir a estes espectáculos, mas confesso em causa própria de detentor de lugar certo em bancada de estádio de futebol, que nada se equipara ao espectáculo ao vivo, numa paleta de cores, sons, cheiros e emoções.
Infelizmente, sinto-me cada vez mais distante do chamado desporto-rei, que é hoje imperador em tudo o que pode manchar o ideal desportivo que mantenho intacto no reduto dos valores que perfilho. No futebol (mas não só) acontece o que de pior se poderia imaginar.
Violência e ódio sem limites; um discurso tão reles e tão baixo de dirigentes que deveriam ser modelo de discrição e comportamento; uma lógica materialista que ocupou todo o espaço da lealdade das relações entre os diferentes protagonistas, onde os chamados “agentes de jogadores” contaminam, distorcem e inflacionam as regras (?...) do mercado para montantes absurdos e irreais, e onde os media alimentam e alimentam-se da alienação brutal das massas populares; viciação de resultados, corrupção, comissões em pirâmide.
Tem tudo a ver com dinheiro e com interesses de poder.
Rio de tristeza, ao ver tantos progressistas de outrora hoje rendidos e calados perante esta manipulação mental global de transformação do planeta-bola. Tanto se criticava o antigo regime salazarista pela santíssima trindade da alienação do povo:
Fátima-Fado-Futebol.
Mas a que assistimos hoje senão a doses exponenciais de ópio das mentes?
O fenómeno é geral, mas vivendo no coração de uma Europa desenvolvida e estabilizada democraticamente há mais tempo, só posso testemunhar que Portugal bate todos os recordes negativos a vários níveis.
Aqui onde estou, não vejo telejornais em horário nobre (ou qualquer outro) a ocupar um terço do seu noticiário com rondas tricolores obrigatórias de cobertura de treinos e conferências de imprensa de uma pobreza de conteúdos mais do que franciscana, e intérpretes de terceira categoria.
Não assisto a horas e horas intermináveis e consecutivas de combates verbais, “desinstruídos” e inúteis entre chamados “comentadores” (onde não faltam trânsfugas da política…), a perorar antes, durante e depois do que se passa nos relvados do jogo jogado (quando jogado…), ao mesmo tempo, em simultâneo de todas as estações televisivas nacionais. Não deve haver produção de “chouriços” (conteúdos) mais fácil e mais barata…
Os jogadores agridem-se, desrespeitam os árbitros, queimam tempo de uma forma escandalosa, fazem teatro de má qualidade, o fenómeno futebolístico está a ultrapassar todos os limites da falta de vergonha de todo o tipo de protagonistas.
Perguntar-me-ei: “ainda gostas de futebol?”. Responderei: “ainda, mas cada vez menos!”.
Sinto-me desperto, longe da manada, com o espírito crítico mais apurado.
Sim, se as coisas não mudarem radicalmente no futebol, provavelmente só ocuparei o tal lugar na bancada uma vez por outra, cada vez mais raramente, serei mais selectivo na qualidade dos jogos televisivos que sintonizo.
Tal como noutros tipos de intoxicação, o desmame não é fácil de fazer de um dia para o outro. Precisa de outro leite de substituição.
Chego ao ponto que pretendo atingir com esta espécie de crónica. Descobri em Estrasburgo, onde passei a viver e trabalhar desde há dois anos, as virtualidades de um desporto que nunca tinha presenciado ao vivo: o basquetebol! O SIG Strasbourg é um clube de topo em França, que disputa a Liga dos Campeões na Europa, e do qual me tornei adepto com lugar marcado desde o primeiro momento que entrei num pavilhão que enche até às 6.000 pessoas.
O basquetebol é um jogo limpo.
Por regra, os jogadores não podem tocar nos adversários.
Não há agressões, não há palavrões, nem discussões estúpidas com os árbitros.
Não há um segundo de tempo morto. O cronómetro pára quando pára o jogo, e há limites estreitos para tentar marcar pontos.
Há música motivacional durante todo o espectáculo, entretenimento e distribuição de prendas aos espectadores nos tempos de paragem.
A assistência é correcta e civilizada, numa mescla equilibrada inter-geracional, avôs-pais-filhos-netos, mulheres e homens.
E o resultado do jogo discute-se até ao último segundo na maior parte dos desafios.
Pode uma equipa estar a perder por 10 pontos a 5 minutos do final, e acabar a vencer por 10 pontos de diferença.
É um cenário electrizante, o público envolve-se totalmente no apoio à sua equipa.
Treinadores, dirigentes e árbitros vestem-se com elegância e tratam-se com cortesia. Cada vez que saio do Rehnus, venho com a alma lavada. Valeu o dinheiro que paguei, todos deram o melhor de si próprios, com suor e mestria nos lançamentos.
Não me senti enganado, mas recompensado, mesmo se o SIG aqui ou acolá tropeça no resultado. Aconselho vivamente aos meus amigos que se informem, e experimentem ver por aí em Portugal se tiverem oportunidade. Abraço.
Estrasburgo, 5 de Maio de 2018
José Mendes Bota

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